quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O POEMA E SUAS RIMAS






(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

Este poema que deixo hoje no blog pertence ao meu livro "A memória do Pai", publicado em Portugal em 2006. Faz parte, também, da coletânea "Alma Gentil: Raízes", título dado por Nelly Novaes Coelho, publicada no Brasil em 2010. "Alma Gentil" reuniu no mesmo volume sete livros meus publicados em Portugal. Este poema é resultado da transformação de minha poesia, quando passei a me dedicar à poesia portuguesa, cansado do que se escrevia no Brasil, sem generalizar. Sempre repito: sem generalizar. Cansei-me das soluções fáceis, da mediocridade mesmo, uma produção de "poesia" duvidosa enaltecida pelos suplementos culturais brasileiros inconsequentes. Minha experiência com a poesia de Portugal durou exatamente 16 anos. Em termos de poesia, foi o que de mais importante que fiz na vida de poeta. O último livro que escrevi nessa busca de minhas próprias raízes portuguesas chama-se "23 Elegias da Mão Esquerda", que será lançado em Portugal, em Coimbra, no mês de outubro. As 23 elegias foram escritas em Coimbra, em duas temporadas que passei em Portugal, em 2014 e 2015. Essa dedicação à poesia portuguesa me levou a Portugal muitas vezes. Em alguns anos, cheguei a viajar quatro vezes para a terra de meus pais. Minha mãe, Lucília, nasceu em Anadia, a 25 quilômetros de Coimbra. Meu pai, Álvaro, nasceu em Angola. Essa experiência com a poesia portuguesa, em 16 anos seguidos, me rendeu 16 livros de poesia e um pequeno romance chamado "Cartas de Abril para Júlia" que começou a entrar também na linguagem da narrativa espanhola do tempo de Cervantes. Todos esses livros estão publicados em Portugal. Este poema que deixo hoje no blog tornou-se obrigatório nas leituras que faço. Li o poema pela primeira vez no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, e tive de repeti-lo. E cada vez que estou em Portugal, faço leituras de poemas e este é obrigatório. Também tornou-se obrigatório aqui. Sou chamado de poeta luso-brasileiro, em publicações portuguesas. A experiência com a poesia de Portugal levou-me aos versos metrificados e também às rimas. Em um dos livros que publiquei em Portugal, "67 Sonetos para uma Rainha", uso rimas de Camões e versos decassílabos, com acentuação tônica em cada sílaba par, o que destaca o ritmo do soneto, constituído de 14 versos - 2 quartetos e 3 tercetos. Também escrevi nos "67 sonetos" versos alexandrinos e ainda muitos sonetos com rimas internas e finais. Não é fácil. Foram 16 anos de dedicação total em busca da poesia séria, que não se perde em facilidades ou em jogo de palavras que se tornou coisa comum na poesia brasileira. Sou severo no que diz respeito à poesia. Minha vida inteira, desde os 11 anos de idade, foi dedicada à poesia que escrevo com consciência. Poeta 24 horas por dia. Num destes dias, precisei de um poema de "A Memória do Pai" e acabei lendo este poema número 22 e suas rimas, em versos de sete sílabas. É, confesso, uma espécie de provocação a muitos que aqui se dizem poetas e não entendem coisa nenhuma de poesia e de poema. Este texto soa como cabotino, mas asseguro que não é. É raiva mesmo. De qualquer maneira, é um poema que escrevi de uma só vez e que me deixou feliz especialmente pelo seu desfecho e pelo seu percurso poético descrito na 1a. pessoa. Deixo então no blog este poema para os meus 19 leitores. O importante é sentir. A poesia é um pulo no abismo sem saber voar. Não sei voar. E sempre estou pulando no abismo que tenho dentro de mim mesmo.



Pouco sei desta memória
das vidas que desconheço

nem me sei voltar em mim
neste tempo em que padeço

a misturar todas as coisas
no que se mostra do avesso

nada sei do que me faço
nem da dor sei o começo

nunca vou onde me quero
nem me faço o que me peço

espero que chegue o dia
nesta noite em que me esqueço

minha palavra que morre
no silêncio mais espesso

vivo de mim a fugir
onde sempre permaneço

para dentro deste mar
onde em sonho me arremesso

de meu quarto sempre parto
a esperar por meu regresso

se viver é meu desejo
de morrer não me impeço

pouco sei desta memória
das vidas que em mim pereço

tantas mortes que perdidas
têm em mim seu endereço

os navios que partem breves
no oceano que escureço

este frio em minha pele
nesta blusa que não teço

quando vou ao meu encontro
mais em mim desapareço

ao fazer o meu discurso
as palavras emudeço

às vezes entro num parque
e ao ser feliz me entristeço

quanto mais me quero vivo
dentro de mim adoeço

não percorro meu jardim
pelas flores que feneço

vivo por mim a rezar
mas sempre destruo o terço

não olhar dentro de mim
é assim que me conheço

faço tudo em meu contrário
nesta escada que não desço

tiro o chapéu às pessoas
mas no gesto me despeço

só me vejo em minha ausência
encontrar-me não mereço

quando a andar evito as pedras
muito mais em mim tropeço

nada sei desta memória
no entanto resplandeço

assim se faz o poema
na medida que não meço

sei-me inútil na poesia
na palavra que adormeço

quanto mais explico o verso
quase nada esclareço

e quando me torno bárbaro
na verdade me enterneço

preciso dos meus cuidados
mas em mim me desguarneço

sei que a dor me mata aos poucos
mas com ela me envaideço

brilha-me o sol à janela
mas só a treva enalteço

no espelho em que me vejo
nada em mim me reconheço

falam-me os provérbios sábios
mas com eles ensurdeço

quando penso em nascer
sinto mais que envelheço

e quando me penso lúcido
muito mais me enlouqueço

quanto mais chega a manhã
mais em sombras anoiteço

quanto mais me desfiguro
mais comigo me pareço.

 

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