quarta-feira, 26 de abril de 2017

O HOMEM ANTIGO QUER ADORMECER DIANTE DO MAR.

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O homem antigo disse aos pássaros da tarde que desistiu. Primeiro pensou em todas as coisas que ainda lembra e depois afirmou que desistiu. O homem antigo não compreende mais as coisas que o cercam. E também não quer compreender mais. A poesia sempre foi um ferimento que ele suportou a vida inteira. Está tudo muito distante e também ausente. O homem antigo observa a paisagem que lhe resta, o nada, e caminha invisível pelos poemas que deixou de escrever, sobre amores antigos, aqueles que deixaram de existir para sempre. O homem antigo não sabe mais de si mesmo. Está perdido dentro de si, andando devagar observando as últimas gaivotas de um tempo que desapareceu. O homem antigo quer somente olhar tudo de longe. O homem antigo deixou de existir como sempre foi. Agora fala sozinho sobre coisas que ele mesmo não compreende. O homem antigo quer adormecer diante do mar, mas não sabe se isso lhe será possível. O homem antigo cansou. O homem antigo caminha sozinho somente à noite, para não ser visto por ninguém. O homem antigo não sabe mais acreditar. O homem antigo permanece quieto envolvido na névoa de um tempo que apagou a vida. O homem antigo quer ir embora. Só ir embora, mais nada.  

Um comentário:

  1. Lhe encontrei amigo Álvaro...Suas poesias são o favo de mel..

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