sexta-feira, 26 de maio de 2017

CHEGA UMA HORA EM QUE A POESIA NÃO BASTA


(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

Ontem à noite eu escrevi uma frase que pode ser um pequeno poema, movido por alguma coisa que não sei explicar. Não foi um momento literário. Foi como se, de repente, eu despertasse para o mundo sem saber ao certo que rumo deveria tomar. Como se, de repente, eu me desse conta de todos os absurdos que me rodeiam. Como se, de repente, eu tivesse criado asas para voar de mim. Como se, de repente, eu caminhasse dentro de mim vendo os espelhos em minha volta, todos quebrados com imagens que não me pertencem mais. Peguei meu caderno pensando que iria escrever um poema longo para o livro que escrevo agora "O Colecionador de Pedras". Mas não. Não seria um poema longo. Escrevi apenas: "A poesia é nada. Um equívoco. E os poetas mentem. Poeticamentem". E parei aí. Nem mais uma palavra. Depois senti que essa frase ou pequeno poema dizia tudo o que eu estava sentindo, que é exatamente isso. Não me compreendo falar de poesia num mundo assim. Não há como compreender. Está tudo muito longe. E a distância mede exatamente a medida de todas as coisas. Fiquei quieto comigo mesmo. Depois me lembrei de um poema antigo chamado "Poético", que está no meu livro "Terminal", publicado em Curitiba, em 1999, 1a. edição. Fui então para minha biblioteca e li o poema. Senti que é assim mesmo. Senti mais profundamente, somente agora, um poema publicado em 1999. Deixo então esse poema aqui. Ele fecha esse momento que senti ontem à noite, como se tudo tivesse explodido em minha volta.
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POÉTICO
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Chega uma hora em que a poesia
não basta em si,
chega uma hora em que a poesia
não basta em ti.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em mim.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em nada.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Não basta porque a poesia
não basta,
como se desnecessária.
Como se desnecessária
chega uma hora em que a poesia
não basta em.
Não basta aquém,
não basta além.
Chega uma hora em que a poesia
não é.
Não é poesia,
se assim fosse, seria.
Chega uma hora em que a poesia
não basta, não chega.
Chega uma hora em que a poesia
se mata em si,
dentro dela,
no próprio avesso,
no cofre de sua palavra,
o que não se alcança.

Chega uma hora em que a poesia
não dá.
Chega uma hora em que a poesia
não.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O HOMEM ANTIGO QUER ADORMECER DIANTE DO MAR.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)



O homem antigo disse aos pássaros da tarde que desistiu. Primeiro pensou em todas as coisas que ainda lembra e depois afirmou que desistiu. O homem antigo não compreende mais as coisas que o cercam. E também não quer compreender mais. A poesia sempre foi um ferimento que ele suportou a vida inteira. Está tudo muito distante e também ausente. O homem antigo observa a paisagem que lhe resta, o nada, e caminha invisível pelos poemas que deixou de escrever, sobre amores antigos, aqueles que deixaram de existir para sempre. O homem antigo não sabe mais de si mesmo. Está perdido dentro de si, andando devagar observando as últimas gaivotas de um tempo que desapareceu. O homem antigo quer somente olhar tudo de longe. O homem antigo deixou de existir como sempre foi. Agora fala sozinho sobre coisas que ele mesmo não compreende. O homem antigo quer adormecer diante do mar, mas não sabe se isso lhe será possível. O homem antigo cansou. O homem antigo caminha sozinho somente à noite, para não ser visto por ninguém. O homem antigo não sabe mais acreditar. O homem antigo permanece quieto envolvido na névoa de um tempo que apagou a vida. O homem antigo quer ir embora. Só ir embora, mais nada.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

AS PESSOAS CIRCUNSTANCIAIS


(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO) 


As pessoas circunstanciais entram na vida da gente sem que se perceba. De repente, fazem parte de quase tudo. As pessoas circunstanciais surgem ninguém sabe de onde. Num Café, num restaurante, numa banca de jornais, numa livraria. A pessoa circunstancial se aproxima com alguma conversa qualquer. Tenho muitas pessoas circunstanciais na vida que me deixaram marcas. Angústias, decepções, dores. Às vezes nem me lembro mais, mas tento uma explicação. As pessoas circunstanciais desaparecem como surgem. A gente nem percebe. Percebe, sim, depois que somem deixando coisas quebradas, palavras duras, atitudes desprezíveis. Tenho medo das pessoas circunstanciais. Tenho receio de, de repente, encontrar uma delas. As pessoas circunstanciais passam sempre ao esquecimento total, pelo menos no que me diz respeito. As pessoas circunstanciais estão em toda parte. Parece que escondidas nos becos. Nas ruas sem saída. Para estar num beco e ruas sem saída basta eu mesmo, eu comigo mesmo. Eu devo ser uma pessoa circunstancial para minha própria vida. Por isso não me levo a sério. As pessoas circunstanciais não têm compromisso com nada. Eu,  particularmente, tenho um compromisso com a poesia, que é quase a mesma coisa. Pessoa circunstancial de mim mesmo, nada mais tenho a dizer.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A HORA DE IR EMBORA SE APROXIMA CADA VEZ MAIS.

Pretendo retomar os compromissos culturais, lançamento de livros, palestras. Fazer em 2017 tudo que tive de adiar em 2016, por motivo de saúde. Não ando bem, mas não posso esperar a vida inteira esta angústia baixar um pouco. É preciso retornar às coisas. Assim, no final de abril ou início de maio, farei o lançamento em São Paulo do livro de poemas "De mãos dadas", que escrevi juntamente com a poeta espanhola Montserrat Villar González, que é minha tradutora na Espanha. Esse livro foi escrito para ser publicado este ano na Espanha e no México. Mas decidi homenagear a Montserrat e a Editora Escrituras se interessou pelo livro e fez uma edição lindíssima. Traduzi para o português os poemas de Montse, assim como fez na Espanha, traduzindo meus poemas para o espanhol. No livro, um poeta responde ao outro indagações sobre a poesia, tudo em forma de poema. (O mesmo fiz com a poeta Thereza Christina Motta, que vive no Rio. Também esse livro sairá em breve pela Íbis Libris, do Rio de Janeiro. Chama-se "A palavra que a mão não consegue escrever"). Voltando ao livro que escrevi com a Montse, no final cada um apresenta uma biografia bastante resumida. A minha termina  assim: "Planeja viver em Portugal em exílio voluntário". Meu editor falou comigo sobre isso e ponderou que talvez não ficasse bem numa biografia. No entanto, não desaprovou nada. Então expliquei o que se passa dentro de mim, o que ele está cansado de saber.. Não vejo a hora de sair deste país amargurado. Não vejo a hora. Sou brasileiro, filho de pais portugueses, meu pai de Angola e minha mãe de Anadia, em Portugal. Depois de uma experiência de 15 anos com a poesia portuguesa aprendi a compreender algo que se chama sentimento. Estarei lá em outubro para lançar "19 elegias da mão esquerda" e depois seguirei para a Espanha, a partir de Salamanca, para lançar dois livros adiados do ano passado. Quero mesmo sair daqui. Cansei. Cansei de tanta gente indecente que manda no meu destino. Cansei de corrupção. Cansei dos ladrões. Cansei de tudo. Cansei da poesia, também, sem generalizar. O Brasil se transformou numa ficção. Quero sumir daqui o que, entre nós, não terá importância nenhuma. Sou somente um cidadão de 5a.categoria. Os ladrões continuarão a mandar e eu me nego a viver num país onde os ladrões fazem e desfazem, especialmente aqueles que por mais de 20 anos pregaram, com minha ajuda, honestidade e ética na política. Para mim chega. Chega mesmo. A hora de ir embora está se aproximando. Por isso a última frase de minha pequena biografia no livro "De mãos dadas", escrito com a Montse, está correta para minha consciência. Por isso repito: "Planeja viver em Portugal em exílio voluntário". Esse é meu desejo. Espero que a vida me permita realizá-lo.

sexta-feira, 24 de março de 2017

OS PEQUENOS POEMAS DE ATÉ 140 TOQUES MORRERAM.

Acredito que meus 19 leitores acostumaram-se com a publicação todos os dias de um pequeno poema meu de até 140 toques. Começou acidentalmente. Depois acostumei-me. Não que eu escrevesse unicamente para colocar no tuíter. Não. Iniciei uma experiência poética que ainda não sei avaliar o resultado. Assim como fiz com a poesia portugueses. Dediquei-me à poesia de Portugal por longos 15 anos, o que resultou em 17 livros com a temática da poesia portuguesa, o ritmo, a melodia, as palavras, a elaboração do poema, etc. Todos publicados em Portugal. O último livro dessa experiência, "19 elegias da mão esquerda", será publicado em Portugal no mês de outubro. Quanto aos pequenos poemas de até 140 toques a experiência esgotou. Escrevi muito. Todos os dias escolhia um poema para colocar no tuíter. Mas acabou. Estou escrevendo um novo livro que vai chamar-se "O colecionador de pedras" e sinto que a produção desses pequenos poemas está prejudicando esse novo livro que está na minha cabeça. Tudo que vou escrever termina em 140 toques. Chegou a hora de me livrar disso. Lembro-me que quando escrevi "67 sonetos para uma Rainha", publicado só Portugal. Esse livro demorou longo tempo para ser concluído. Eu só falava em decassílabo, tal a marca que os sonetos me colocaram no pensamento, as dez sílabas rimadas, contadas, com um ritmo dos mais difíceis da literatura poética do mundo. Precisei me dar um tempo para me livrar das dez sílabas dos sonetos. É o que acontece agora. Talvez, em algum momento, eu coloque um pequeno poema. Mas não posso mais passar a vida escrevendo poemas assim. Então informo aos meus 19 leitores que essa experiência acabou. Vou novamente me dar um tempo. Vou escrever no tuíter o que me for possível. Valeu a experiência. Vou agora avaliar todo o material que escrevi ao longo desse tempo todo. Se o resultado for bom, farei um livro que já tem até nome: "301 pequenos poemas azuis". Vamos ver no que vai dar. Este ano retomarei tudo que deixei de fazer em 2016, quando, por motivo de saúde, tive de adiar tudo. Para este ano tenho "De mãos dadas", que escrevi com a poeta espanhola minha tradutora Montserrat Villar González. Sairá na Espanha e no México e também aqui no Brasil, com os poemas da Montserrat traduzidos por mim para o português. Sairá também outro livro que escrevi com a poeta Thereza Christina Rocque da Motta, que vive no Rio de Janeiro. Chama-se "A palavra que minha mão não consegue escrever". Depois "19 elegias da mão esquerda" em Portugal, em outubro. E, a seguir, mais 2 livros na Espanha. Também em outubro participarei com uma leitura de poemas do Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, com poetas de vários países. Já está tudo programado. Espero retomar 2016 que para mim não existiu. Em 2016 só participei de antologias internacionais, que não exigiam minha presença. A que mais me orgulha é uma antologia com mais de 200 poetas do mundo. Chama-se "No, rasignación" e trata da violência contra a mulher. Só por isso talvez 2016 tenha valido, mesmo tendo sido tão adverso para mim. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

SOLIDÃO, CICATRIZ ALÉM DA PELE

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

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A solidão corta o ar, as imagens, as palavras. Sentir solidão é estar por dentro de si mesmo, sem rumo, sem saída, uma dor que escorre pelas paredes, pelos livros, pelos dedos. As mãos perdem o aceno e tudo se transforma numa mancha, uma sombra que percorre o olhar, envolvendo tudo. Muitas vezes me sinto sozinho sem saber porquê. Fico então em silêncio comigo mesmo, andando no meio das pessoas, aquela multidão de gente que anda, anda, anda, anda. Eu também ando, mas não sei para onde vou. Ontem à noite ouvi um CD da fadista Mariza, que uma prima me enviou de Portugal. E uma faixa tem o nome "Boa noite, solidão", fado letra-poema de Jorge Fernando. Ouvi muitas vezes. Um fado que me tocou muito na voz linda de Mariza. Um fado que percorre o corpo e a alma, com as guitarras portuguesas, a voz da fadista dizendo de um mundo de dor, essa solidão de todas as horas, que caminha pelas ruas, se mostra no espelho, no poema, na poesia ainda possível. Transcrevo a letra de "Boa noite, solidão", aos meus 19 leitores, para dividir a Beleza.
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Boa noite, solidão,
vi entrar pela janela
o teu corpo de negrura.
Quero dar-te a minha mão
como a chama de uma vela
dá a mão à noite escura.

Os teus dedos, solidão,
despenteiam a saudade
que ficou no lugar dela.
Espalhas saudades pelo chão
e contra a minha vontade
lembras-me a vida com ela.

Só tu sabes, solidão,
a angústia que me traz a dor
quando o amor a gente nega.
Como quem perde a razão,
afogamos nosso amor
no orgulho que nos cega.

Com o coração na mão,
vou pedir-te, sem fingir,
que não me fales mais dela.
Boa noite, solidão,
agora quero dormir,
porque vou sonhar com ela. 

 

quinta-feira, 16 de março de 2017

O VELHINHO NO ENTARDECER DA AVENIDA PAULISTA

Quando me sinto aflito demais, de não suportar, costumo ir até a Avenida Paulista sem encontro marcado com ninguém. Vou para tomar um café sozinho, pensar em pouco nas coisas, conversar  comigo mesmo, encontrar algum amigo que também está perdido por lá. Depois ando um pouco, compro pulseirinhas de couro dos artesãos na calçada, entro na Cultura, vejo livros, descanso e vou-me embora. E foi em um desses dias que, ao andar pela Paulista, vi um velhinho, velhinho mesmo, mas não posso imaginar qual sua idade. Curvado, passos lentos, roupas bastante simples, um velho paletó escuro, calça da mesma cor, uma camisa velha e os cabelos em desalinho. Passeava na Paulista com seus dois cães, certamente os últimos amigos que têm e terá na vida. Dois cães pequenos. Um, ele levava no colo, porque estava cansado. O outro, bem pequeno, caminhava bem devagar junto aos passos vagarosos de seu dono. O velhinho da Paulista conversava com os dois cães. E caminhava devagar seguindo o seu destino, se é que o destino existe. Fiquei observando um longo tempo. Nunca saberei o nome desse velhinho que passeava com seus dois pequenos cães no entardecer da avenida Paulista. Talvez nunca mais o veja. Imagino que atravessou a vida com aqueles mesmos passos vagarosos que, agora, caminham mais lentamente. Não sei o que ele conversa com seus cães, principalmente o que levava junto ao peito. Depois parei junto a uma banca de jornal e fiquei olhando, até que desaparecesse no meio da multidão, dos casais de namorados, das mulhers bonitas que andam por aqui, das pessoas caminhando rápido em busca do metrô, quase todos - ou todos - olhando no celular. O velhinho da Paulista com seus dois pequenos cães ficaram no meu pensamento. Estão lá guardados como uma imagem terna desta cidade desumana, que não respeita ninguém.    

sábado, 11 de março de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO SABE COMPREENDER AS COISAS COMO ELAS SÃO.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

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O homem antigo não sabe compreender. Ingênuo do século 18, o homem antigo acredita em tudo, não sabe no que não deve acreditar. Depois, o homem antigo percebe que está perdido nas ruas, sem palavras, sem rosto, sem mãos, sem casaco, sem distâncias. O homem antigo precisa aprender a viver. Mas é difícil. Os caminhos são árduos. As armadilhas estão em todos os lugares, principalmente nas palavras. O homem antigo só pensa em ver o mar, porque sempre será preciso ver o mar, principalmente no final da tarde, quando começa a anoitecer. O homem antigo tenta esconder-se de si mesmo, mas não consegue. O homem antigo não consegue se esconder. O homem antigo não sabe. O homem antigo ainda acredita. O homem antiga escrever poemas nas madrugadas com seu lápis sem ponta. O homem antigo quer ir embora para algum lugar, mas não sabe qual. O homem antigo caminha sozinho de encontro ao muro sem saída. O homem antigo só quer viver.

terça-feira, 7 de março de 2017

UMA LIÇÃO DOS LOBOS AOS HOMENS

>>> POR FAVOR NÃO DEIXAR COMENTÁRIO <<<
 
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Costumo receber coisas bastante interessantes de minha prima MARIAZINHA SANTIAGO, que é professora da Universidade de Aveiro, em Portugal. Geralmente sobre literatura e poesia, em particular. Mas, de vez em quando ela foge desses assuntos. É o caso do que me enviou agora. Uma bela lição. Por esse motivo, repasso para meus 19 leitores. Vale a pena ler. Especialmente quando a palavra solidariedade está fora de moda, senão completamente esquecida.
 
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O sentido de união e de grupo que
infelizmente falta ao homem que diz
viver em sociedade organizada.

 

 

domingo, 5 de março de 2017

PORQUE ALGUNS POETAS E ESCRITORES ESCREVEM TANTO

Meu amigo querido, poeta Celso de Alencar, sabendo de minha produção literária, enviou-me o trecho de uma entrevista que a professora de Letras, Eulina Pacheco Lufti, concedeu à jornalista e escritora Elizabeth Lorenzoti, que escrevia para o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. A entrevista foi feita em março de 1999.

Sou um poeta com mais de 50 livros publicados no Brasil, incluindo também romances e ensaios literários. E ainda peças de teatro. Mas sou fundamentalmente poeta. Some-se a isso 17 livros publicados em Portugal e 6 na Espanha, além de dezenas de antologias de contos e poesia brasileiras e estrangeiras. Além disso tudo, atualmente tenho 21 livros inéditos e comecei agora a escrever outro que vai chamar-se "O Colecionador de Pedras". E há, ainda, os pequenos poemas de até 140 toques que escrevo para o twitter, em fase experimental e que poderá transformar-se num livro que vai chamar-se "301 pequenos poemas azuis". Tudo inédito ou, antecipadamente, póstumos. Meus amigos de Geração 60, não só de São Paulo, mas do Brasil, dizem sempre que eu sou o poeta que mais escreve. E é verdade: trabalho todos os dias na literatura, até sábados e domingos. Todos os dias. Todos.

O trecho da entrevista de Eulina Pacheco Lufti a Elizabeth Lorenzentti, em 1999, que Celso de Alencar me enviou é o seguinte:

-"A liberdade faz parte da natureza humana. Os que escrevem mais são os que se sentem mais sufocados. Mas, quem tem sensibilidade mais aguçada, com um apelo maior de liberdade, acaba buscando meios para dar vazão a esse desejo. E, no caso, escrever é uma válvula de escape, é um gesto contra essa falsa homogeneização, contra um mundo que não reconhece as diferenças".

Acho que está correto. Eu me encontro nisso. Estou dentro disso, amarrado dentro disso, gritando no meio disso tudo. A palavra é o que me salva, não como uma escrita "mecânica", porque, antes de tudo, busco a qualidade literária em tudo que escrevo. Mas, confesso: escrevo por angústia. Por muita tristeza, desencontros e desencantamentos. Preciso me salvar de alguma maneira.
 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO SABE COMO SEGUIR

O homem antigo está diante de si. Como se não estivesse. O homem antigo não compreende porque, ao olhar no espelho, ele vê a figura de uma mulher distante que habitou sua vida por alguns dias, mas que deixou marcas, uma cicatriz - ele sabe - que não desaparecerá nunca mais. O homem antigo tem um arrependimento dentro de si, mas não sabe do quê. O homem antigo nunca sabe de nada. O homem antigo quer apenas viver o que lhe resta, Anda entre as árvores, os pássaros e as palavras que machucam sempre. O homem antigo escreve um poema no meio da noite e adormece. O homem antigo sempre adormece. E sempre sonha sonhos impossíveis de realizar. O homem antigo nem sabe mais se deseja realizar seus sonhos. As pessoas pedem atitude, em vez de sonhos. Mas a esta altura da vida o homem antigo não quer mais mudar. O homem antigo costuma dizer aos pássaros que a poesia, hoje, é para poucos. Só para os que ainda têm alma. Ocorre que quase todas as almas estão brutalizadas pelo que é prático na vida. Não há lugar para o sentimento. O sentimento deixou de existir faz tempo e o homem antigo nem percebeu. O homem antigo viveu seu último amor e dá graças por isso. O homem antigo não compreendeu bem. Mas ele sabe que não é preciso compreender nada. As histórias se explicam por si mesmas. Com as próprias palavras.   

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A ÚLTIMA CARTA DE AMOR





O homem antigo não sabe esquecer. Só sabe sentir. E guarda o que sente. O homem antigo se perdeu. Anda nas ruas perdidas de si mesmo. O homem antigo soube que o mundo vai se acabar. Lembra da mulher que ocupa sem pensamento e não sabe o que fazer. A mulher que ocupa seu pensamento preferiu a distância ao amor. O homem antigo soube que o mundo vai se acabar. Então começou a escrever sua ultima carta de amor. Mas não sabe a quem enviar, porque a mulher que ocupa todos seus momentos quer fugir da vida e deixar para trás tudo que sonhou. O homem antigo não compreende. Não sabe esquecer. No final das tardes vê as gaivotas no mar de Portugal e conversa com elas sobre coisas que ele mesmo não entende. O homem antigo se transformou num homem triste. Caminha com seu casaco pesado pelas ruas que esqueceu porque quer se perder ainda mais de si mesmo, para ficar sem nenhuma razão percorrendo as igrejas de seu silêncio. O homem antigo escreve sua última carta de amor, mas não sabe as palavras. Então permanece quieto dentro do quarto à procura das sombras para conversar. O homem antigo adormece e deixa que a vida exista em seu percurso, com suas dores e alegrias. Talvez seja melhor.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O ÚLTIMO AMOR







O último amor é quando você não abre mais a janela.

O último amor é quando você sai às rua e vê que tudo mudou, os muros, as árvores, as pessoas que passam por você.

O último amor é quando alguém lhe diz que a Primavera já passou e você nem percebeu.

Quando as mãos trêmulas tentam acenar para alguém, mas não existe ninguém para o aceno.

O último amor é quando tudo se transforma numa lembrança vaga, sem nome, sem data, sem lugar.

O último amor é quando você deseja ficar em silêncio com você mesmo.

Quando você olha o mar e tem vontade de chorar.

Quando tudo parece ausente.

Quando você não sente suas mãos no bolso do casaco.

O último amor é quando você se olha no espelho e não se reconhece, transformado que está em um homem antigo.

O último amor é quando as palavras não bastam mais.

O último amo é quando a poesia deixa de existir.

O último amor é quando você vê na rua um amigo que já morreu.

O último amor é caminhar por lugares estranhos, que você não lembra.

É quando você sente que não vai dar mais tempo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO COMPREENDE

O homem antigo não compreende. O homem antigo só sente. O homem antigo percorre as ruas e nunca sabe aonde vai chegar. Perde-se em sonhos e depois não sabe oque fazer com eles. O homem antigo é sempre atingido por afetos desfeitos com brutalidade. Ele se olha no espelho e procura lembrar-se da própria vida, mas não consegue. O homem antigo não quer lembrar-se da própria vida. O homem antigo tem um ferimento aberto no coração, onde dormem as palavras que ele juntou a vida inteira para nada. O homem antigo não percebe que o mundo é outro. O homem antigo não cabe no  mundo que o cerca, onde as pessoas brincam de viver, destroem as coisas mais belas com uma espada de fogo de maneira perversa. O homem antigo não compreende como as pessoas fazem coisas que vão apagar outras pessoas do próprio afeto. O homem antigo tropeça em si e não acredita. O homem antigo não acredita. O homem antigo chora e sente vergonha de chorar.  

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A POESIA QUE NÃO CABE MAIS

Numa destas noites longas - e quase todas são longas - ouvi um CD de fados antigos. Já conhecia o fado "Sinal da Cruz", gravado por muitos fadistas homens de Portugal. Numa dessas noites longas, algumas intermináveis. O homem antigo costuma se perder nas noites que não terminam. E nessa noite deu atenção especial ao fado "Sinal da Cruz", com letra do poeta Linhares Barbosa e música de Terrer Trindade. Sentiu que, muitas vezes, a poesia não tem mais lugar. Um fado, uma história de amor, que atravessa os anos e sempre é lembrado em algum lugar. O longo poema musicado que tanta gente cantou, exatamente na terra em que a poesia escorre pelas paredes. Não sei dizer o que pensam os portugueses de um fado assim. Mas sei que sempre alguém ouve, alguém pensa, alguém canta. A singeleza dos versos, a confissão de amor em palavras que quase ninguém mais diz. Só o homem antigo permanece diante de coisas assim. O homem antigo ouviu o fado "Sinal da Cruz" muitas vezes. Depois se fez muitas perguntas que ele mesmo não sabia se responder. O homem antigo nunca sabe se responder. Cabe num tempo assim brutalizado um poema de um fado antigo como este? A poesia é triste. A poesia não sabe. A poesia se cala, mas resistirá sempre. Eu peço que meus 19 leitores leiam a letra de "Sinal da Cruz" e procurem ouvir o fado em algum lugar da Internet.

SINAL DA CRUZ

Na pequena capelinha
da aldeia velha e branquinha,
dei à Maria da Luz
uma cruz de pôr ao peito,
e um juramento foi feito
pelos dois sobre essa cruz.

Juro ser tua,
disse-me ela.
Eu disse:
Juro ser teu.
Pelos vitrais da capela
entrava a bênção do céu.

Passavam-se os meses,
o tempo corria,
e todas às vezes
que eu via Maria
sozinha e menina,
dizia-lhe assim:
Maria da Luz,
tu é para mim
o sinal da cruz
da cruz pequenina.

Mas um dia, há sempre um dia,
que nos rouba a fantasia.
Maria entrou na capela,
esquiva, pé ante pé,
mas meu símbolo de fé
não brilhava ao peito dela.

Quis perguntar-lhe pela jura.
porém, de fé perdida,
vi que não vinha segura,
tinha outra cruz na vida.

Passavam-se os meses,
o tempo corria,
e todas as vezes
que eu via Maria
com más companhias,
dizia-lhe assim:

Maria da Luz,
tu és para mim
o sinal da cruz,
da cruz dos meus dias.

Só mesmo o homem antigo para emocionar-se com um fado assim, cantado sempre por voz masculina, com a dor do fado de Portugal, aquela poesia que vai fundo na vida do homem e nas coisas mais simples, que nem se notam mais. Só mesmo o homem antigo, perdido dentro dele sem saber onde se esconder do mundo.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ANIVERSÁRIO DE SÃO PAULO - RUA BREJO ALEGRE



Desta vez a Poesia participará das comemorações do aniversário de São Paulo, que faz 463 anos Uma bela antologia com poetas da cidade, publicada pela SESI-Editora-SP, será lançada na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, com um recital de poesia. A ideia da antologia partiu do poeta e ensaísta Carlos Felipe Moisés e contou com a ajuda de Victor Del Franco. Foram escolhidos nomes de ruas e locais paulistanos que fogem ao comum, como Rua das Flores, Largo da Misericórdia, Ladeira da Memória, Rua Aurora, Viaduto do Chá, Vila das Belezas, Beco dos Aflitos e outros. Cada poeta escolheu um lugar ou rua que, de alguma maneira, tenham a ver alguma coisa com sua vida. Carlos Felipe explica que a ideia de uma antologia assim nasceu de alguns versos de Mário de Andrade: "Ruas de meu São Paulo/ onde está o amor vivo?/ Onde está?". Participam poetas como os próprios organizadores, Carlos Felipe Moisés e Victor Del Franco, Celso de Alencar, Carlos Machado, Glauco Mattoso, Renata Pallottini, Paulo Bomfim, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim, Luiz Roberto Guedes, Reynaldo Damázio e vários outros. Cada poeta participa com poema e um pequeno depoimento. Como participante, escolhi a Rua Brejo Alegre, no Brooklin Paulista, bairro onde passei minha infância, adolescência e onde vivo até hoje.

 
PEQUENO DEPOIMENTO

Nasci na Maternidade de São Paulo, que não existe mais, na rua Frei Caneca. Faz algum tempo uma amiga interessou-se em produzir um livro com poemas meus que citavam ruas de São Paulo, especialmente os publicados nos anos 70 e 80. Sem contar os romances como “A Faca no Ventre” – que foi publicado no Japão –, ”O Defunto - Uma História Brasileira” -  e “Autópsia”. Essa amiga pesquisou todos os meus poemas que citam nomes de ruas de São Paulo e a primeira (Rua da Consolação) ocorreu em “O Sermão do Viaduto”, os poemas que eu dizia nos anos 60 no Viaduto do Chá, com microfone e quatro alto-falantes. Foram nove leituras e cinco prisões pelo DOPS, até a proibição definitiva dos recitais. A sexta prisão, a mais dura e violenta, ocorreu em 1969, quando a polícia da ditadura descobriu que era eu quem desenhava os cartazes do Partido Socialista Brasileiro, por meio de uma exposição de desenhos que fiz no Instituto Graal, na Rua Cardoso de Almeida, promovida pela Igreja dos Dominicanos, nas Perdizes. Essa amiga chegou à conclusão que de todos os poetas que pesquisou, eu sou o que mais citou ruas da cidade de São Paulo em poemas. Acho a ideia de Carlos Felipe Moisés de organizar uma antologia com poetas falando das ruas paulistanas das mais louváveis, iniciativa concluída por Victor Del Franco. Uma das ruas que mais guardo em mim é a Brejo Alegre, no Brooklin Paulista Novo. O bairro era dividido em duas turmas, a da avenida Central (hoje Padre Antonio José dos Santos) e a da rua Brejo Alegre. As duas turmas rivais eram separadas pela Sociedade Hípica Paulista, que até hoje tem o seu portão principal na rua Conceição de Monte Alegre. Ninguém de uma turma podia entrar no território alheio. Era briga certa, clima que se acirrava mais no futebol, quando os times das duas turmas se confrontavam. Eu morava com meus pais na rua Catipará. Naquela época, eu jogava no juvenil do Corinthians, que tinha como técnico o ex-jogador Rato. Fui levado ao Corinthians pelo então diretor do clube, Wadid Helou, que alguns anos depois tornou-se seu presidente. Ele me viu jogar no Grêmio Desportivo Monções, que tinha seu campo na rua Flórida. De vez em quando, junto com alguns amigos, eu me atrevia a invadir o território inimigo da turma da rua Brejo Alegre. Apanhei muito por esse atrevimento. Mas de vez em quando a minha turma pegava alguém do outro lado da Hípica e espancava também. Para quem já escrevia poesia e publicava no jornalzinho do bairro o futuro não era muito claro. O trabalho começou bastante cedo: com 12 anos eu era jardineiro em Cidade Monções, onde viviam os ricos. Também fazia carreto na feira livre da rua Pensilvânia, com meu carrinho de rolimã, toda quarta-feira, de onde eu levava os restos para casa, única maneira de comer um pedaço de fruta. Depois, aos 14 anos, fui operário numa fábrica de canetas, na rua Arandu. O dono da fábrica, a seguir, me levou para ser contínuo no extinto Correio Paulistano, na rua Líbero Badaró, que foi o meu primeiro contato com o Jornalismo. A seguir, vieram os estudos, o encontro com o Massao Ohno, os Novíssimos e a vida por enfrentar, especialmente após o golpe de 1964. Guardo cicatrizes até hoje. Nunca serão esquecidas. Hoje eu me olho no espelho e me pergunto: “Então, foi para isso?”. Mas guardo também esses momentos singelos de uma infância e adolescência bastante pobres e, no meio dessa pobreza, a rua Brejo Alegre que faz parte de minha vida. Convém dizer que, depois dos 20 anos, todos nos tornamos amigos e até fizemos parte de um coral na Igreja São João de Brito, que fica ainda na rua Luisiânia. E cada um seguiu o seu caminho. Muitos não existem mais.

   

RUA BREJO ALEGRE


Os operários da rua Brejo Alegre não existem mais

mas estão guardados na memória onde repousam as imagens

algumas fotografias perdidas sem palavras.

Os operários da rua Brejo Alegre

partiram num navio de esquecimentos

um mar de terra escura

como uma lápide e seus lamentos.

 

Quando eu era vivo percorria as ruas de uma cidade

repleta de igreja e hóstias sagradas

ao cantos de anjos tristes que dormiam na minha casa.

Gostava das ruas com nome de santos

porque andava a rezar como quem se esquece

assim em altares que não sei mais

no murmúrio da lágrima de uma prece.

 

2

 

Eu era um poeta parnasiano em 1902

quando comecei a conhecer a cidade em que me esqueço

como se me percorresse em mim mesmo

os becos das mulheres que me amaram, que desconheço.

 

Os operários das fábricas das construções das praças

o coração vermelho no fio de sangue a escorrer do lábio

um sabor de domingo ao entardecer

quando quase tudo se esconde

e São Bento se cala

monge que se morre em apelos

no canto vazio de uma sala.

 

Os rios também eram vermelhos

desse vermelho tão vermelho

que o vermelho não compreende

no corte da ferida aberta a palavra morta que não sabe

já que a boca não diz que nada é necessário

quando amanhecem as auroras em palcos perdidos

teatros de personagens que se afligem

em sílabas de ais nos poemas feridos.

 

3

 

Sou apenas um transeunte de ruas ausentes

apagadas de um mapa invisível

que ainda trago no bolso do casaco

aquele da Galeria Metrópole da guitarra elétrica

e de tantas mulheres que amei em desespero

no Copan onde residi com uma dor impossível de sentir

aquele delírio dos anjos expulsos

os que querem ficar naquela hora de se ir

faces que se perdem

no outro lado do espelho

um lugar no paraíso

com o grito mais vermelho

o que se apaga nesses becos

nada novo tudo velho.

 

Cidade de São Paulo de São Judas de São Francisco

Santa Maria Madalena Santa Rita de Cássia

Nossa Senhora de Fátima São José

As ruas de Álvares de Azevedo

pecados que ainda guardo como relíquia

esse Deus que me faz mastigar pecados

criaturas que saltam de mim das minhas ruas

praças que esqueci no meu nome

uma bolsa de estrelas cadentes minhas luas

a pressa de não viver num labirinto

o poema que se cala nas sílabas nuas

nas verdades da poesia em que minto

sílabas decoradas dez oito treze uma duas

e mais e mais e mais e mais que já não sinto

as mulheres que me habitam bailarinas do nada

esse homem quieto que se percorre e se delira

antigos poetas nos sobrados anoitecidos

que ainda acreditavam numa lira.

 

4

 

Angélicas ruas de antigas mulheres

de bocas vermelhas no esmalte de unhas longas

que no Arouche engoliam as floriculturas

mistura na memória das ladeiras

em que os sapatos se perdem dos destinos

que se vivem na busca da liberdade

assim queriam os operários da Brejo Alegre  

mas agora tudo é tarde.

 

5

 

Morreram-se em si

não resta nada

senão o que se tece no que se sente

o que se esquece no ausente o que entardece

na tarde que anoitece inclemente

o que nunca permanece no que se mente

calada palavra que se enaltece

no brejo das almas serpente que se padece

e no entanto amanhece

a manhã mais veemente que escurece

sonho demente

que nas horas desaparece no mais evidente

que enlouquece assim demente

que se aquece alma clemente

a tez tecida somente da lã que esvanece

o que é aparente no que se foge

o que aparece vagamente e se carece

a face que se oferece e se conhece

morta morta morta gente

o que não é mas acontece

não existem mais os operários da rua Brejo Alegre

engolidos calados ao passar dos anos

nos comícios mudos de promessas nulas

no sonho dos desenganos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ESTHER PROENÇA SOARES, 88 ANOS, POETA.

 
 
 
 
Já faz algum tempo que conheço Esther Proença Soares. Nos meus últimos lançamentos de livros em São Paulo ela compareceu. Sempre conversamos um pouco. Gosta de conversar sobre literatura, mas prefere ser chamada, sempre, de professora. Soube um dia que ela já havia publicado um livro de contos, "Inventário das Sobras" e um magnífico livro para crianças, com uma linguagem primorosa e ilustrações de Kik Neves. Ela explica que trata-se de um livro em linguagem infantil para escritores nascentes, com algumas informações sobre teoria literária. Mas o que Esther Proença Soares queria mesmo era me mostrar um livro de poemas que escreveu ao longo dos anos. Queria saber de mim se eram poemas mesmo ou se somente palavras sobre palavras. Li o livro "Disco de Cartolina", que está saindo agora pela Pólen Editorial de São Paulo. Fiquei encantado. Conversamos sobre o original, trocamos ideias num longo café na Avenida Paulista, falamos sobre poesia exaustivamente. Ao ver o livro de Esther publicado chego a pensar que ainda é possível acreditar. Os tempos são de sombras, mas ainda é possível acreditar.     
 
                                                              *
 
No primeiro poema de seu livro, Esther Proença Soares, 88 anos, explica que chegou de caravela e navegou luares. Na verdade, navegou muitos luares, infindáveis luares que vivem nela e nas suas palavras cuidadas com zelo. Agora, depois de tanto tempo a navegar sentimentos, diz que anda a cultivar poemas. O livro “No disco de cartolina a vida se somou” é uma autobiografia em versos, cuidadosamente elaborada, buscando dentro de si momentos que vivem ainda, mesmo vestidos de um passado que não se esquece, porque tudo vive. Esther abre seu livro com versos do poeta Manoel de Barros e essa epígrafe revela a trajetória deste livro: “Buscar beleza nas palavras é uma solenidade de amor”. Exatamente isso. O livro de Esther – poderia ser um título – é mesmo uma solenidade de amor, uma cerimônia de cultivar a vida, todos os instantes da vida, todas as dores da vida e os possíveis gestos que essa mesma vida ainda tem de generosidade. Em um poema ela afirma que seu poema é o eco certo e matemático de cada grito, de cada pulsação. É assim que essa poeta colhe sua poesia a caminhar distâncias, ausências, figuras quase apagadas na memória, ferimentos, confissões. Muitas vezes, uma longa carta de amor. Outras vezes a palavra que renasce em si mesma dentro de um poema. Por isso, Esther é uma poeta que escreve versos assim, de extremada beleza: ”Enquanto tu, eterna obreira, teces/ no vai e vem de tua agulha tecedeira/.../”. Certamente refere-se a ela mesma, tecedeira de palavras com as agulhas às vezes dolorosas da poesia. Nesta longa carta de amor em forma de poemas, Esther também se mostra perplexa com um tempo muitas vezes sem alternativa, em que tudo se transforma. Deixa claro que, mesmo diante desse cenário de quase tudo destruído, ela ainda canta a sua Pauliceia Desvairada, lembrando a figura de Mário de Andrade e de uma cidade que um dia existiu, hoje não existe mais. Hoje vive nos pedaços das esquinas, nas sombras caminhantes que percorrem os jardins que desaparecem. No entanto, a poesia de Esther nada tem a ver com Mário de Andrade, e a cidade desvairada foi, neste caso, um silêncio que saltou mais forte dentro do poema. No entanto, essa perplexidade existe não somente em relação à Pauliceia, mas à vida e ao tempo que passou e apagou tantas coisas. “Para fazer um poema/ não basta empilhar versos/ resgatar um sentimento/ ou lamento”, diz a poeta em um poema que, antes de ser a palavra da poesia, é a palavra da poeta, revelando, a esta altura da vida, a sua seriedade em lidar com os seres invisíveis que surgem em forma de versos. Por esse motivo, observa que a ordem, agora, “é seduzir as incoerências, o jogo de sombra e luz, e invocar as transgressões, o caos das palavras”. Aí reside essa poesia, a palavra que se tece, que se cuida, que se elabora, No final de tudo, “fazer um poema é uma celebração”. E é mesmo. Pelo menos para os poetas sérios, o que está difícil de encontrar num tempo de profunda negação da vida. Caminhar estas páginas representa uma viagem, uma longa viagem poética que tem a vida no palco a ser vivida por personagens que vivem dentro de Esther. Ela escreve: “Escrever um poema é ousadia enorme/ Desculpem se cometo assassinatos nos meus versos/ Eles brotam em mim e me sufocam/ pedindo para nascer/ ser minha história”. É, sim, a história de uma vida que se deixou viver, muitas vezes uma verdadeira batalha, outras. a cerimônia de poder colher os instantes que se fizeram inesquecíveis. A poeta Esther Proença Soares confessa em um de seus poemas sentir que sua alma é de vidro que se estilhaça. Mas num mundo assim, certamente isso seja normal, porque as almas estão mesmo curvadas: “Muitas vezes como um gato/ enrolo-me no abrigo de mim mesma/ lambendo minhas feridas”. As feridas existirão sempre. O que vale mesmo é o encantamento que este livro oferece, uma palavra poética feita especialmente por tudo que se viveu.                          

domingo, 15 de janeiro de 2017

HOMEM ANTIGO

O homem antigo percorre seus labirintos e não compreende.
O homem antigo não compreende quase nada.
O homem antigo lê uma carta de amor e não sabe o que dizer.
O homem antigo anda consigo mesmo de mãos dadas pelas ruas e pelas praças e quase sempre se perde, sem nunca saber onde está.
O homem antigo ama um amor que não conhece, que faz crescer nele uma planície de girassóis, mas ele não compreende, ele não sabe o que é um girassol.
O homem antigo caminha por seu tempo sem saber onde chegar.
O homem antigo espera uma estrela chegar com uma luz que ele nunca viu, mas deseja, deseja, deseja, e nesse desejo o homem antigo olha seu relógio parado, mas não sabe perguntar a hora para ninguém.
O homem antigo não sabe se expressar.
O homem antigo só espera, o homem antigo esperou a vida inteira, o homem antigo atravessou a vida numa espera que não terminou nunca.
O homem antigo canta uma canção desconhecida, medieval, como se tivesse uma princesa ao seu lado, a colher flores silvestres, a orar nas igrejas, a perdoar-se dos pecados que não cometeu.
O homem antigo tem vontade de chorar e sempre chora, especialmente no final das tardes, quando começa uma noite sempre interminável.
O homem antigo escreve um poema, mas ele não sabe para que serve um poema. O homem antigo acredita na poesia, ele vê a poesia, ele colhe a poesia, ele descobre a poesia, ele aguarda a poesia todo momento, a poesia não lhe sai do pensamento, não sai de si, porque essa poesia grudou na sua pele, como se fosse a pele dele mesmo.
O homem antigo espera, o homem antigo espera o dia amanhecer.    

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

40 ANOS DE POESIA DE OSVALDO RODRIGUES



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40 ANOS DE POESIA DE

OSVALDO RODRIGUES – AINDA EXISTEM POETAS


Eis uma trajetória poética das mais dignas, descrita nesta antologia de 40 anos de poesia, “Tudo aí”, lançamento da Editora Penalux. Osvaldo Rodrigues é um poeta de inteira dignidade diante da poesia e dos poemas que escreve. No Brasil está muito difícil encontrar poetas assim, que se deixam sentir, o que parece estar proibido neste vale de lágrimas que é a poesia brasileira, sem generalizar. Mas o que está valendo atualmente é ser “poeta” que, no fundo, não sabe o que é poesia, o que é sentir o mundo. Tem-se que escrever poemas com um fio de prumo, tijolinho em cima de outro tijolinho, utilizando régua e compasso. Esse “poeta” tem de ser, antes de tudo, um mecânico, um engenheiro ou qualquer coisa que o valha. Dizer, por exemplo, que poesia produzida assim “não tem alma” provoca um risinho cínico e irônico dos tecnocratas da poesia, mesmo que esse “não tem alma” seja utilizado como força de expressão. Infelizmente, a maior parte da poesia brasileira hoje é produzida por tecnocratas da palavra. Esses que enaltecem nomes como verdadeiros magos da poesia e do poema mas que, na verdade, representam uma nulidade, com muitas experiências formais. Não produzem poemas poéticos, mas pedras de gelo enaltecidas por uma universidade e um jornalismo cultural indecentes. A poesia brasileira está cansada desses endeusamentos inúteis feitos por uma gente que não tem o que fazer da vida. Não é o caso de Osvaldo Rodrigues que, neste volume, reúne uma obra poética de grandeza, de poesia verdadeira, de poesia de sentimento, da palavra que explica essa fotografia que só um poeta de verdade consegue observar descrevendo suas nuances. Uma poesia humana. Uma poesia escrita por um poeta, não por uma máquina. Um poeta que não ignora a vida. A poesia do homem pelo homem e para o homem. Osvaldo Rodrigues é um poeta que acredita que o corpo é uma casa sagrada, o que está correto. Por isso ele é o poeta que é. Essa trajetória digna começou no final dos anos 70 e segue até hoje como poemas dos mais significativos da poesia que se produz neste país, não fossem tantas as inversões de valores irresponsáveis e inconsequentes de alguns que, circunstancialmente, ditam as regras no jornalismo e nas universidades. Osvaldo Rodrigues deixa clara sua vida de poeta em muitos momentos deste livro e o faz em forma de poema, com poesia. Por exemplo:

 

o que quer que eu diga

o que quer que eu faça

o que quer que eu escreva

não será suficiente

para dimensionar o meu ser

 

Não são todos os poetas capazes de abrir assim sua palavra para situar-se diante dele mesmo. Para isso é preciso ter certeza do que se deseja na poesia que não é essa farsa hoje presente em quase tudo. Há de se destacar os belíssimos poemas escritos com palavras que começam com a mesma letra, do começo ao fim. Essa é, sim, uma poesia de sentimento. Os tecnocratas se zangam com afirmação assim. Ficam zangados porque a ordem é escrever poemas que não provoquem nada, que não fazem pensar, refletir, reler, analisar. São “poemas” que, na verdade não existem. Os tecnocratas das universidades e do jornalismo literário exigem isso, e os carneiros obedecem. Mas nem todos são carneiros, preferem ser poetas.

Os poemas que o poeta Osvaldo Rodrigues chama de “poemas-anúncios” são a prova desta bela poesia, essa poesia que hoje se esconde dos facínoras da palavra e se mostram somente aos poetas de verdade.

 

Constroem-se casas

com dois ou três andares de solidão

sacadas com vistas para o infinito

serão aceitas duplicatas de sonhos

ou moeda cunhadas por querubins

como forma de pagamento.

 

O que dizer de um poema assim? Não há nada a dizer, senão envolver-se no sentimento do poeta diante do mundo. A trajetória do poeta Osvaldo Rodrigues segue essa trilha desde a adolescência, seus poemas escritos aos 15 anos. Não é para qualquer um. Só um poeta verdadeiro tem a trilha para seguir sempre assim, na descoberta da palavra, da poesia, de si mesmo, sem dar chance nenhuma às facilidades reinantes neste país infeliz que é o Brasil. Nestes tempos brutais, repleto de tecnocratas do poema, ter em mãos este volume de 40 anos de poesia do poeta Osvaldo Rodrigues representa um momento especial e de alento. Nem tudo se perdeu.      

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

POESIA NO ANIVERSÁRIO DE SAMPA

 A poesia fará parte das comemorações dos 463 anos de São Paulo. Praticamente nunca fez. Mesmo nas tais "viradas culturais" a poesia  nunca participou. Nesse caso é bom, porque as viradas culturais se transformaram em algo que não dá para descrever. Mas desta vez a poesia terá um lugar de destaque nas cerimônias de aniversário da cidade. Será lançada exatamente no dia 25 de janeiro a antologia "tranSPassar", organizada pelo poeta e ensaísta Carlos Felipe Moisés e pelo poeta Victor Del Franco.  Uma belíssima edição reunindo poetas de São Paulo escrevendo sobre ruas que têm nome poético ou ligado à história da cidade. Publicação da SESI-Editora-SP. A antologia tem um subtítulo que é "Poética do movimento pelas ruas de São Paulo". O lançamento será no final da tarde do dia 25, na Casa das Rosas, na Paulista, 37. Carlos Felipe Moisés explica que a ideia do livro partiu de uma instigação de Mário de Andrade: "Ruas de meu São Paulo/ onde está o amor vivo?/ onde está?". E ainda: "Caminho pela cidade/ sofrendo com mal-de-amor". E mais: "Meus pés enterrem na rua Aurora/ no Paissandu deixem meu sexo/ na Lopes Chaves a cabeça/ esqueçam". Carlos Felipe afirma que os poetas têm mantido com as ruas de São Paulo um constante intercâmbio que traduz sentimentos desencontrados, ambivalentes. É isso que a antologia mostra. Revela a personalidade inconfundível de cada poeta assim como a multiplicidade de roteiros que a cidade oferece e nisso se incluem orgulho, espanto, revolta ou um singelo enternecimento lírico, conforme observa Carlos Felipe Moisés. Participam da coletânea "tranSPassar" os poetas Álvaro Alves de Faria, Carlos Felipe Moisés, Carlos Machado, Elisa Andrade Buzzo, Fernando Paixão, Glauco Mattoso, Leila Guenther, Luiz Roberto Guedes, Paulo Bomfim, Paulo César Carvalho, Renata Pallottini, Reynaldo Damázio, Rodolfo Witzig Guttilla, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim, Tarso de Mello e Victor Del Franco. Algumas das ruas e locais sobre as quais os poetas escreveram: Rua Brejo Alegre, Ladeira da Memória, Largo da Misericórdia, Viaduto do Chá, Morro do Piolho, Rua Aurora, Campos Elíseos, Vila das Belezas, Rua das Flores, Beco dos Aflitos, Rua da Glória, Rua Lavapés. Cada poeta faz um depoimento sobre a rua escolhida e sua ligação sentimental com o local. Eu escolhi a Rua Brejo Alegre, no Brooklin Paulista, onde passei minha infância. O nome era tão forte, na época, que toda a região passou a ser conhecida como Brejo Alegre. Uma rua com muitas histórias que fazem parte da minha vida. Na época, era a turma do Brooklin e a turma do Brejo Alegre, separadas pela Sociedade Hípica Paulista. Mas o importante nisso tudo é que a poesia fará parte das comemorações do aniversário de São Paulo. A palavra também pode embelezar a cidade e torna-la mais humana.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O PÁSSARO


"O Pássaro" é o título do poema com que participo de uma antologia de poetas de dezenas de países, "No Resignación", sobre a violência contra a mulher, coletânea organizada pelo poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart, da Universidade de Salamanca, Espanha. São poetas do Brasil, Cuba, Panamá, Estados Unidos, Estônia, Iraque, Peru, Japão, Porto Rico, Itália, França, Chile, Espanha, Colômbia, Grécia, Índia, Inglaterra, Nicarágua, Kosovo, Turquia, Indonésia e muitos outros países. Neste blog há uma resenha sobre "No Resignación" postada recentemente.

OBS: Publico "O Pássaro" em sua versão original, em português.  






O PÁSSARO
 
O pássaro de asas feridas,

ave cortada por dentro

por essa faca afiada do algoz.

 

O pássaro não voa

e se deixa esquecer

quando devia viver

sua palavra mais aguda

na escuridão de seu silêncio.  

 

Não devia esse pássaro

ferir-se mais diante

das janelas insanas

de longas asas

e unhas afiadas.

 

Não.

 

Não devia esse pássaro

Com seu ferimento

viver nesse cárcere

que cerca sua vida.

 

Não devia esse pássaro

interromper seu dia,

não devia esse pássaro,

não devia.

 

A palavra que desvenda

o que agride e machuca,

a costura na boca

com agulhas do ultraje.

 

Essa mulher,

esse pássaro,

esse passo,

esse poço.

 

Sonho, mulher, teu espaço,

tuas asas.

Sonho, mulher, teu aceno

na planície mais ampla

com teu gosto de amora

que nasce à mesa

e renasce

na árvore dona de si.

 

O espelho que se quebra

ao olhar do esquecimento:

que se quebrem todos,

mas que se salve tua face,

no que tens por sentimento.

 

As mãos tecelãs

tece a tez que te pertence,

a vida que te é devida,

ave ávida por viver,

assim mulher,

assim pássaro.

 

O lábio de vidro que se parte,

um objeto,

um destino,

o choro que lava o rosto.

 

Não pode ser mais assim.

 

Apagada que está no céu,

a estrela foi feita para brilhar,

o golpe brutal do verbo e do gesto

não cabe no recinto da vida.

 

                   Álvaro Alves de Faria

                     Brasil