segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SOLIDÃO QUE CORTA A VIDA.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

A solidão é uma coisa palpável. Concreta. Doída. Escrevi hoje no tuíter o que sinto: "Solidão brutal é quando a gente se olha no espelho e não vê mais a própria imagem". É assim que sinto. Muitas vezes me vejo imóvel em mim mesmo. Estar só independe da multidão. Independe de tudo. Estar só é estar longe de si mesmo, dentro de si mesmo, fora de si mesmo. A solidão muitas vezes nem machuca mais. É como se fizesse parte do próprio corpo. Nesta manhã fiz a última leitura de meu livro a sair em Portugal em outubro, "23 elegias da mão esquerda". Sempre escrevo ou leio na minha biblioteca ouvindo fados de Lisboa ou de Coimbra, que são diferentes. E escolhi ouvir a fadista Mariza, um CD de uma pessoa que vive pulsando em meu coração. E uma das faixas, "Boa noite, solidão", me fez sentir mais. E não é possível sentir mais. Ouvi umas 15 vezes a mesma faixa, como se necessitasse ter certeza de alguma coisa. Foi quando escrevi essa frase de hoje que está no tuíter. Deixo a letra do fado, sempre um poema. Letra e música de Jorge Fernando. Aquela que me deu o CD pediu que eu ouvisse bem essa faixa e outra, "Promete, jura". Dói ouvir a voz de Mariza. Mas também dói não ouvir. É como a solidão existe. Essa solidão que tem a ver com toda a poesia, com todo poema, pelo menos no meu caso.

Boa noite, solidão,
vi entrar pela janela
o teu corpo de negrura
quero dar-te minha mão
como a chama duma vela
dá a mão à noite escura.

Os teus dedos, solidão,
despenteiam a saudade
que ficou no lugar dela,
espalhadas saudades pelo chão
e contra minha vontade
lembras-me a vida com ela.

Só tu sabes, solidão,
a angústia que traz a dor
quando o amor a gente nega.
Como quem perde a razão,
afogamos nosso amor
no orgulho que nos cega.

Com o coração na mão
vou pedir-te sem fingir
que não me fales mais dela.
Boa noite, solidão,
agora quero dormir
porque vou sonhar com ela.
 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A POESIA DO HOMEM, A POESIA DA MULHER.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

Sempre, desde muito jovem, mas já participante ativo dos movimentos literários e sociais em São Paulo e já no jornalismo, defendi a existência da poesia feminina. Quando escrevi sobre isso a primeira vez, houve muita discussão sobre o assunto. Houve até debate sobre o assunto. Até hoje defendo isso, a existência da poesia feminina e da poesia masculina. Acabei de lançar, em São Paulo, o livro "De mãos dadas", que escrevi com a poeta espanhola, Montserrat Villar González, que traduz meus livros na Espanha. O mesmo livro será lançado na Espanha em  novembro, com outro título, e também será distribuído no México. Estarei presente. Agora será marcada a data para o lançamento no Rio de Janeiro e em São Paulo, do livro "Minha mão contém palavras que não escrevo", que escrevi com a poeta Thereza  Christina Rocque da Motta. E, no momento, estrou escrevendo mais um livro com uma mulher, a poeta portuguesa Leocádia Regalo. Espero escrever pelo menos 5 livros assim, em parceria com uma mulher poeta. Os poemas conversam entre si. A poesia feminina é muito mais delicada do que a masculina. A mulher sente mais. A mulher vê coisas que o homem não consegue. Além disso, a poesia, a própria poesia é feminina. A experiência tem sido rica. E dá para notar mesmo a diferença dos poemas. Isso não significa que eu esteja menosprezando a poesia masculina. Não. Mas, para mim, a poesia, a melhor poesia é a feminina, aquela poesia de nuances, de segredos, de palavras medidas, sentidas profundamente antes de colocadas no papel. Admiro poesia escrita por mulher. Poderia citar muitos nomes aqui para mostrar a diferença, mas não é preciso. Estou sentindo a diferença agora, mais nitidamente, já que nesses livros um poema responde ao outro, uma espécie de uma conversa poética. O olhar feminino e o olhar masculino. A poesia feminina é muito mais lírica, de um lirismo que a poesia masculina não alcança. Mas isso não acontece com todas as  mulheres que escrevem poesia. Muitas escrevem seus poemas naturalmente, sem esse toque feminino a que me refiro. O que não diminui o poema em nada. Mas essa sensibilidade poética de verdade só a mulher tem. E é bom que seja assim.    

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O HOMEM ANTIGO CADA VEZ COMPREENDE MENOS DO MUNDO E DAS PESSOAS.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)


O homem antigo não sabe para onde ir, esqueceu os caminhos.
O homem antigo não compreende mais as coisas.
O homem antigo está sempre se enganando com as pessoas.
As pessoas são esquisitas.
As pessoas mudam.
As pessoas se transformam.
O homem antigo não consegue entender.
O homem antigo não quer entender.
E se entender, o homem antigo ficará ainda mais triste do que já é.
O homem antigo não sabe o que mais dizer.
O homem antigo cansou de caminhar estradas a vida inteira e parece que isso nada valeu.
O homem antigo não compreende as pessoas que se transformam não se sabe em quê.
As pessoas vão desaparecendo porque deixam de ser o que eram.
O homem antigo pergunta por que mas não sabe se responder.
O homem antigo quer ficar sozinho.
O homem antigo precisa do cheiro e do barulho do mar.
O homem antigo sabe que a poesia não admite deslumbramento.
Alguns ficam deslumbrados, mas a poesia é dor.  

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

CHACRINHA ENTREGA AO POETA O TROFÉU "VELHO GUERREIRO".

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)



Pois é, eu recebi das mãos do Chacrinha o Troféu Velho Guerreiro, que ele concedia a alguém
só em circunstâncias especiais. Recebi o troféu de Chacrinha quando o DOPS proibiu definitivamente "O Sermão do Viaduto", que eram os poemas que eu lia em pleno Viaduto do Chá, em São Paulo, com microfone e 4 alto-falantes. Fiz 9 recitais no local e fui detido 5 vezes. As coisas todas estavam difíceis. Como um jovem jornalista, mas já editor de um suplemento cultural nos Diários Associados e também participante de um programa de entrevistas políticas na extinta TV Tupi, eu era observado à distância. Nesse tempo em que o DOPS proibiu de vez O Sermão do Viaduto, eu e o Nélson Rubens, hoje na Rede TV!, trabalhávamos juntos. Éramos amigos de muitas loucuras, amizade que existe até hoje. Nélson Rubens era o assessor direto de Chacrinha, que tinha seu programa na extinta TV Excelsior, na rua Nestor Pestana. Partiu do Nélson Rubens a ideia de o Chacrinha me conceder o Troféu Velho Guerreiro. Mas será que ele, o Chacrinha, iria comprar essa briga contra a ditadura? Pois o Chacrinha aceitou a ideia. E lá fui eu para o programa. Naquele tempo, os convidados ficavam numa pequena mesa no palco. Sentei-me com a Vanusa que, naquela noite, veio para São Paulo pela primeira vez para cantar em um programa de televisão. Veio de Funchal, em Minas Gerais. O Chacrinha sabia bem o que significaria a entrega do troféu para mim. Mas foi em frente e revelou imensa generosidade, colocando-se contra o que vinha acontecendo no Brasil. Quando me chamou, Chacrinha disse mais ou menos assim: "Alôôôô!!! Atenção!!!Este aqui é o poeta Álvaro Alves de Faria, que fala poesia no Viaduto do Chá. Este aqui é o poeta do Viaduto. Já foi preso 5 vezes por dizer poesia no Viaduto que fica cheio de gente. O poeta do Viaduto diz o que tem que ser dito. Agora O Sermão do Viaduto foi proibido. Por isso o poeta está aqui para ser homenageado com o Troféu Velho Guerreiro. Taqui o troféu, poeta! Palmas para ele, palmas para ele!". Lembrei-me disso vendo um dia destes um programa inteiro do Chacrinha, gravado já na TV Globo, num canal da Globo que repete programas antigos. O velho guerreiro mostrou a sua cara. Por isso Gilberto Gil fez aquele samba para ele, quando teve de deixar o país, junto com o Caetano, para viver em Londres. Naquele noite que recebi o troféu Velho Guerreiro fomos todos comemorar na Galeria Metrópole, que passou a ser o ponto de encontro de todo mundo. Estavam todos lá. Todos tínhamos 20 anos. Lembro-me que Geraldo Vandré ficou o tempo todo sem dizer uma única palavra. Melhor dizendo, falava sozinho.Vanusa começou a namorar o Antônio Marcos e Caetano, parecendo mais jovem do que era, fazia planos para a carreira de sua irmã Maria Betânia. Saímos de lá ao amanhecer.         

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O NOME "POETA" FAZ RIR OU PROVOCA RESPEITO?.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)


Faz algum tempo que, todas as tardes, vou à Livraria Saraiva, no Shopping Morumbi. Vou a pé, atendendo a pedido médico. Ele diz que eu tenho de caminhar. Tomo um café, descanso ou pouco e volto para casa. Não é muito distante, mas cansa, pelo menos a mim. No Café da Saraiva tem sempre uma pequena fila. A gente pede o que deseja, paga e fica numa mesa esperando que o chamem. A primeira vez a moça perguntou: "Qual é seu nome?". Álvaro, respondi. Ela não entendeu. Perguntou de novo. Respondi de novo. Quando meu café com leite estava pronto, outra moça chamou: "Aldo!". Fiquei no meu lugar. Até que descobri que ela se referia a mim. Fui buscar o meu café, tomei, fiquei lá um pouco e fui embora. No outro dia, estava uma outra moça no caixa: "Qual é seu nome". Álvaro, respondi. Não entendeu. Fui para a mesa. Até que a moça que prepara o café chamou: "Ado!". Descobri que se referia a mim. Então parei de dizer meu nome. E disse como todo mundo me chama. Cheguei ao Caixa, a moça perguntou: "Como é seu nome?". Poeta, respondi. "Poeta????". É, Poeta, tem algum problema? A moça, rindo, disse que não. Fui para a mesa e esperei. Até que uma das moças que prepara o café gritou: "Poeta!!!!!!". Levantei-me e fui pegar meu café. Aí reparei que todo mundo, mas todo mundo mesmo, olhava para mim, como se nome "Poeta" fosse uma aberração. E isso tem acontecido todos os dias. Quando a moça chama "Poeta!!!!!" todos os olhares se voltam para mim. Umas menininhas bobas que não sabem de p. nenhuma de qualquer e coisa, ficam me olhando na mesa, falando baixinho e rindo. Chego à conclusão que chamar alguém de "Poeta" parece algo assustador ou engraçado demais. A cena se repete todos os dias. Alguns riem, mas muitos me olham com respeito. Respeito mesmo. Muitos já foram até à minha mesa conversar. Mas as menininhas que não sabem de p. nenhuma de nada, continuam rindo. Não são sempre as mesas. Mas são todas iguais. Estão preocupadas com o celular. Ontem estavam me olhando tanto e dando risinhos bobos, que falei a uma delas o meu nome inteiro e lhe disse: "Me procure aí no seu celular!". Não sei se o fez. Nem me interessa saber. Seja como for, não é fácil ser chamado de "Poeta". Talvez signifique louco, idiota, qualquer coisa assim. Se causa algum respeito, também causa risinhos de deboche. No fundo, nessas horas, em me sinto um ET. Pensando bem, um poeta deve ser mesmo um ET neste tempo de muitos equívocos.    

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O POEMA E SUAS RIMAS






(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

Este poema que deixo hoje no blog pertence ao meu livro "A memória do Pai", publicado em Portugal em 2006. Faz parte, também, da coletânea "Alma Gentil: Raízes", título dado por Nelly Novaes Coelho, publicada no Brasil em 2010. "Alma Gentil" reuniu no mesmo volume sete livros meus publicados em Portugal. Este poema é resultado da transformação de minha poesia, quando passei a me dedicar à poesia portuguesa, cansado do que se escrevia no Brasil, sem generalizar. Sempre repito: sem generalizar. Cansei-me das soluções fáceis, da mediocridade mesmo, uma produção de "poesia" duvidosa enaltecida pelos suplementos culturais brasileiros inconsequentes. Minha experiência com a poesia de Portugal durou exatamente 16 anos. Em termos de poesia, foi o que de mais importante que fiz na vida de poeta. O último livro que escrevi nessa busca de minhas próprias raízes portuguesas chama-se "23 Elegias da Mão Esquerda", que será lançado em Portugal, em Coimbra, no mês de outubro. As 23 elegias foram escritas em Coimbra, em duas temporadas que passei em Portugal, em 2014 e 2015. Essa dedicação à poesia portuguesa me levou a Portugal muitas vezes. Em alguns anos, cheguei a viajar quatro vezes para a terra de meus pais. Minha mãe, Lucília, nasceu em Anadia, a 25 quilômetros de Coimbra. Meu pai, Álvaro, nasceu em Angola. Essa experiência com a poesia portuguesa, em 16 anos seguidos, me rendeu 16 livros de poesia e um pequeno romance chamado "Cartas de Abril para Júlia" que começou a entrar também na linguagem da narrativa espanhola do tempo de Cervantes. Todos esses livros estão publicados em Portugal. Este poema que deixo hoje no blog tornou-se obrigatório nas leituras que faço. Li o poema pela primeira vez no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, e tive de repeti-lo. E cada vez que estou em Portugal, faço leituras de poemas e este é obrigatório. Também tornou-se obrigatório aqui. Sou chamado de poeta luso-brasileiro, em publicações portuguesas. A experiência com a poesia de Portugal levou-me aos versos metrificados e também às rimas. Em um dos livros que publiquei em Portugal, "67 Sonetos para uma Rainha", uso rimas de Camões e versos decassílabos, com acentuação tônica em cada sílaba par, o que destaca o ritmo do soneto, constituído de 14 versos - 2 quartetos e 3 tercetos. Também escrevi nos "67 sonetos" versos alexandrinos e ainda muitos sonetos com rimas internas e finais. Não é fácil. Foram 16 anos de dedicação total em busca da poesia séria, que não se perde em facilidades ou em jogo de palavras que se tornou coisa comum na poesia brasileira. Sou severo no que diz respeito à poesia. Minha vida inteira, desde os 11 anos de idade, foi dedicada à poesia que escrevo com consciência. Poeta 24 horas por dia. Num destes dias, precisei de um poema de "A Memória do Pai" e acabei lendo este poema número 22 e suas rimas, em versos de sete sílabas. É, confesso, uma espécie de provocação a muitos que aqui se dizem poetas e não entendem coisa nenhuma de poesia e de poema. Este texto soa como cabotino, mas asseguro que não é. É raiva mesmo. De qualquer maneira, é um poema que escrevi de uma só vez e que me deixou feliz especialmente pelo seu desfecho e pelo seu percurso poético descrito na 1a. pessoa. Deixo então no blog este poema para os meus 19 leitores. O importante é sentir. A poesia é um pulo no abismo sem saber voar. Não sei voar. E sempre estou pulando no abismo que tenho dentro de mim mesmo.



Pouco sei desta memória
das vidas que desconheço

nem me sei voltar em mim
neste tempo em que padeço

a misturar todas as coisas
no que se mostra do avesso

nada sei do que me faço
nem da dor sei o começo

nunca vou onde me quero
nem me faço o que me peço

espero que chegue o dia
nesta noite em que me esqueço

minha palavra que morre
no silêncio mais espesso

vivo de mim a fugir
onde sempre permaneço

para dentro deste mar
onde em sonho me arremesso

de meu quarto sempre parto
a esperar por meu regresso

se viver é meu desejo
de morrer não me impeço

pouco sei desta memória
das vidas que em mim pereço

tantas mortes que perdidas
têm em mim seu endereço

os navios que partem breves
no oceano que escureço

este frio em minha pele
nesta blusa que não teço

quando vou ao meu encontro
mais em mim desapareço

ao fazer o meu discurso
as palavras emudeço

às vezes entro num parque
e ao ser feliz me entristeço

quanto mais me quero vivo
dentro de mim adoeço

não percorro meu jardim
pelas flores que feneço

vivo por mim a rezar
mas sempre destruo o terço

não olhar dentro de mim
é assim que me conheço

faço tudo em meu contrário
nesta escada que não desço

tiro o chapéu às pessoas
mas no gesto me despeço

só me vejo em minha ausência
encontrar-me não mereço

quando a andar evito as pedras
muito mais em mim tropeço

nada sei desta memória
no entanto resplandeço

assim se faz o poema
na medida que não meço

sei-me inútil na poesia
na palavra que adormeço

quanto mais explico o verso
quase nada esclareço

e quando me torno bárbaro
na verdade me enterneço

preciso dos meus cuidados
mas em mim me desguarneço

sei que a dor me mata aos poucos
mas com ela me envaideço

brilha-me o sol à janela
mas só a treva enalteço

no espelho em que me vejo
nada em mim me reconheço

falam-me os provérbios sábios
mas com eles ensurdeço

quando penso em nascer
sinto mais que envelheço

e quando me penso lúcido
muito mais me enlouqueço

quanto mais chega a manhã
mais em sombras anoiteço

quanto mais me desfiguro
mais comigo me pareço.

 

 

 

Pouco sei desta memória
das vidas que desconheço

 
nem me sei voltar em mim
neste tempo em que padeço

 
a misturar todas as coisas
no que se mostra do avesso

 

nada sei do que me faço

nem da dor sei o começo

 

nunca vou onde me quero

nem me faço o que me peço

 

espero que chegue o dia

nesta noite em que me esqueço

 

minha palavra que morre

no silêncio mais espesso

 

vivo de mim a fugir

onde sempre permaneço

 

para dentro deste mar

onde em sonho me arremesso

 

de meu quarto sempre parto

a esperar por meu regresso

 

se viver é meu desejo

de morrer não me impeço

 

pouco sei desta memória

das vidas que em mim pereço

 

tantas mortes que perdidas

têm em mim seu endereço

 

os navios que partem breves

no oceano que escureço

 

 

 

 

este frio em minha pele

nesta blusa que não teço

 

quando vou ao meu encontro

mais em mim desapareço

 

ao fazer o meu discurso

as palavras emudeço

 

às vezes entro num parque

e ao ser feliz me entristeço

 

quanto mais me quero vivo

dentro de mim adoeço

 

não percorro meu jardim

pelas flores que feneço

 

vivo por mim a rezar

mas sempre destruo o terço

 

não olhar dentro de mim

é assim que me conheço

 

faço tudo em meu contrário

nesta escada que não desço

 

tiro o chapéu às pessoas

mas no gesto me despeço

 

só me vejo em minha ausência

encontrar-me não mereço

 

quando a andar evito as pedras

muito mais em mim tropeço

 

nada sei desta memória

no entanto resplandeço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

assim se faz o poema

na medida que não meço

 

sei-me inútil na poesia

na palavra que adormeço

 

quanto mais explico o verso

quase nada esclareço

 

e quando me torno bárbaro

na verdade me enterneço

 

preciso dos meus cuidados

mas em mim me desguarneço

 

sei que a dor me mata aos poucos

mas com ela me envaideço

 

brilha-me o sol à janela

mas só a treva enalteço

 

no espelho em que me vejo

nada em mim me reconheço

 

falam-me os provérbios sábios

mas com eles ensurdeço

 

quando penso em nascer

sinto mais que envelheço

 

e quando me penso lúcido

muito mais me enlouqueço

 

quanto mais chega a manhã

mais em sombras anoiteço

 

quanto mais me desfiguro

mais comigo me pareço.

 

 

 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

HISTÓRIA DE MEU LIVRO "O TOCADOR DE FLAUTA - ENCONTRO POÉTICO COM ALBERTO CAEIRO, O GUARDADOR DE REBANHOS"

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)



Em Portugal o livro foi publicado apenas com o título "O Tocador de Flauta". Não encontrava a palavra certa para colocar como subtítulo. "Diálogo Poético com Alberto Caeiro...". "Conversa Poética com Alberto Caeiro"... "Passeio Poético....". Não encontrava a palavra correta. No início era "Diálogo". Quando o livro estava para ser publicado, cismei com a palavra "diálogo", gasta demais na imprensa para explicar qualquer tipo de situação, principalmente as desonestas que percorrem o Brasil inteiro. Mas o editor da Editora Temas Originais, de Coimbra, Xavier Zarco, tinha um prazo para imprimir o livro. Preferi, então, sacrificar o título e deixei apenas "O Tocador de Flauta", sabendo que o nome de Alberto Caeiro no subtítulo seria importante, até mesmo para explicar o que eram os poemas. Não encontrei a palavra e não quis usar "Diálogo Poético com Alberto Caeiro". Resultado: o livro, publicado em Portugal em 2012, saiu com o título "O Tocador de Flauta", que também prejudicou o prefácio de Carlos Felipe Moisés nessa edição portuguesa. Muito tempo depois, encontrei a palavra. Seria "Encontro Poético com Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos". Carlos Felipe Moisés, importante poeta da Geração 60 de São Paulo, professor de Literatura Brasileira e Portuguesa na USP, decidiu, então, aumentar o prefácio, com o subsídio do subtítulo "Encontro Poético...". Da Geração 60 de Poetas de São Paulo, eu e o Carlos Felipe somos os que têm mais afinidade. Tanto que fizemos juntos a Antologia da Geração 60, comemorando 40 anos da geração, desde o lançamento da Antologia dos Novíssimos, lançada em 1961, por Massao Ohno, o grande editor de poetas jovens dos anos 60. Poucos restaram dos que participaram da Antologia dos Novíssimos. Muitos livros meus, inclusive os publicados em Portugal, têm o prefácio do Carlos Felipe Moisés, que já escreveu um livro sobre mim, "Os Melhores poemas de Álvaro Alves de Faria" (Editora Global, 2008). Faz anos que combinamos que ele escreveria a maior parte dos prefácios de meus livros com o objetivo de reuni-los todos futuramente num volume, para mostrar ao leitor minha trajetória poética por meio dos prefácios de Carlos Felipe. Com o subtítulo "Encontro Poético com Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos", o ensaio de Carlos Felipe se alongou, assim como fez com meu livro publicado em Portugal, "67 sonetos para uma rainha", em que discorreu sobre a história do soneto, passando por Camões, até chegar ao meu livro. "O Tocador de Flauta - Encontro Poético com Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos", será publicado no Brasil no final do ano, quando eu regressar de Portugal e Espanha, para onde viajarei em outubro para lançar 3 livros, 1 em Portugal e 2 na Espanha. Escrevi tudo isso para mostrar aos meus 19 leitores o que uma palavra é capaz de fazer na vida de um poeta. Uma única palavra. Mas em coisas assim não se pode ceder. Tem de ser aquilo que a gente sente. Então, depois de escrever tudo isso, deixo aqui um poema de "O Tocador de Flauta - Encontro Poético com Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos". Tenho certeza de que esse poema dará uma ideia do que é o livro.

POEMA 119

Pelo olhar das ovelhas vejo  os dias que transcorrem como os rios,
mas sei que existe no mundo o que os poetas chamam de poesia,
mas eu nunca vi a poesia, senão nas minhas ovelhas que me seguem,
senão nos passos que dão comigo para lugar nenhum,
essa é a poesia que vejo sempre sem saber ao certo o que é poesia,
e assim escrevo meu poema sem conhecer as palavras necessárias,
mas penso que um poema não precisa de palavras necessárias,
um poema existe na medida em que a vida existe,
na medida em que as ovelhas, por exemplo, vivem suas vidas de ovelhas,
em que mastigam a relva e bebem água nos rios escondidos entre as árvores,
talvez esteja aí o que os poetas chamam de poesia,
então a poesia é uma coisa simples de se ver e descobrir,
uma coisa simples de sentir e colher com as mãos,
mas sou somente um pastor de ovelhas,
talvez um pastor-poeta que ainda não conhece a própria identidade.

terça-feira, 20 de junho de 2017

AS FOLHAS DO OUTONO E OS INCÊNDIOS NAS FLORESTAS DE PORTUGAL.

Tenho acompanhado com muita dor esse incêndio numa das florestas de Portugal. Este, perto de Leiria, que conheço bem. Na região de Leiria fica o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Leiria é uma bela cidade, próxima de Coimbra. Tenho acompanhado o incêndio que matou mais de 60 pessoas assistindo a TV de Portugal, com uma cobertura jornalística que não para. Praticamente o dia inteiro. Os portugueses são um povo sentimental, sentem muito todas as coisas, tristes ou alegres. Pelo que vejo na TV é de chorar. E aquele fogo que não cessa. Já estive em Portugal numa ocasião em que estava acontecendo um incêndio. Não era longe de Coimbra e fiz questão de ir até lá. É apavorante ver as árvores e casas sendo consumidas pelo fogo, diante do desespero de pessoas que choram e se abraçam, um abraço para sempre. Vi de perto. Em Portugal, os bombeiros são voluntários. As pessoas atacam o fogo para proteger suas casas com baldes de água. Depois fogem para não morrer. Infelizmente, desta vez, o fogo cercou até automóveis na estrada que corta a aldeia. A maior parte morreu dentro dos carros. No final da noite em Portugal reúnem-se na TV técnicos e especialistas para discutir a tragédia. Não faltam críticas duras ao governo português. Mas o governo, na verdade, é dono de apenas 2% das florestas. Todo o resto pertence a particulares que não cuidam da floresta como deviam. O calor em Portugal é imenso. Uma vez, em Lisboa, não consegui sair do hotel à tarde porque não me foi possível suportar 42 graus. Só saí à noite. Esse calor com as florestas sem o cuidados necessários resulta nessa tragédia. As folhas caem e secam no chão e o fogo surge sozinho por um fenômeno que não sei explicar. Escrevo tudo isto para dizer como é a alma portuguesa. Numa mesa redonda ontem à noite, com especialistas discutindo o incêndio que já está perto de Coimbra, todos criticaram o governo. E mesmo naquela discussão nervosa, todos se mostravam desanimados e tristes, como a dizer que esse é um problema que se repetirá sempre, como vem se repetindo todos os anos. A alma portuguesa encontra poesia até numa tragédia desse tamanho, com o país abalado, com pessoas chorando nas ruas, nas igrejas, oferecendo donativos. Para resumir tudo, uma das autoridades presentes ao debate usou exatamente estas palavras para demonstrar que nada será feito. Disse textualmente assim: "Daqui a pouco chegarão as folhas do Outono e tudo ficará no esquecimento".

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CHEGA UMA HORA EM QUE A POESIA NÃO BASTA


(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

Ontem à noite eu escrevi uma frase que pode ser um pequeno poema, movido por alguma coisa que não sei explicar. Não foi um momento literário. Foi como se, de repente, eu despertasse para o mundo sem saber ao certo que rumo deveria tomar. Como se, de repente, eu me desse conta de todos os absurdos que me rodeiam. Como se, de repente, eu tivesse criado asas para voar de mim. Como se, de repente, eu caminhasse dentro de mim vendo os espelhos em minha volta, todos quebrados com imagens que não me pertencem mais. Peguei meu caderno pensando que iria escrever um poema longo para o livro que escrevo agora "O Colecionador de Pedras". Mas não. Não seria um poema longo. Escrevi apenas: "A poesia é nada. Um equívoco. E os poetas mentem. Poeticamentem". E parei aí. Nem mais uma palavra. Depois senti que essa frase ou pequeno poema dizia tudo o que eu estava sentindo, que é exatamente isso. Não me compreendo falar de poesia num mundo assim. Não há como compreender. Está tudo muito longe. E a distância mede exatamente a medida de todas as coisas. Fiquei quieto comigo mesmo. Depois me lembrei de um poema antigo chamado "Poético", que está no meu livro "Terminal", publicado em Curitiba, em 1999, 1a. edição. Fui então para minha biblioteca e li o poema. Senti que é assim mesmo. Senti mais profundamente, somente agora, um poema publicado em 1999. Deixo então esse poema aqui. Ele fecha esse momento que senti ontem à noite, como se tudo tivesse explodido em minha volta.
.
POÉTICO
.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em si,
chega uma hora em que a poesia
não basta em ti.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em mim.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em nada.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Não basta porque a poesia
não basta,
como se desnecessária.
Como se desnecessária
chega uma hora em que a poesia
não basta em.
Não basta aquém,
não basta além.
Chega uma hora em que a poesia
não é.
Não é poesia,
se assim fosse, seria.
Chega uma hora em que a poesia
não basta, não chega.
Chega uma hora em que a poesia
se mata em si,
dentro dela,
no próprio avesso,
no cofre de sua palavra,
o que não se alcança.

Chega uma hora em que a poesia
não dá.
Chega uma hora em que a poesia
não.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O HOMEM ANTIGO QUER ADORMECER DIANTE DO MAR.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)



O homem antigo disse aos pássaros da tarde que desistiu. Primeiro pensou em todas as coisas que ainda lembra e depois afirmou que desistiu. O homem antigo não compreende mais as coisas que o cercam. E também não quer compreender mais. A poesia sempre foi um ferimento que ele suportou a vida inteira. Está tudo muito distante e também ausente. O homem antigo observa a paisagem que lhe resta, o nada, e caminha invisível pelos poemas que deixou de escrever, sobre amores antigos, aqueles que deixaram de existir para sempre. O homem antigo não sabe mais de si mesmo. Está perdido dentro de si, andando devagar observando as últimas gaivotas de um tempo que desapareceu. O homem antigo quer somente olhar tudo de longe. O homem antigo deixou de existir como sempre foi. Agora fala sozinho sobre coisas que ele mesmo não compreende. O homem antigo quer adormecer diante do mar, mas não sabe se isso lhe será possível. O homem antigo cansou. O homem antigo caminha sozinho somente à noite, para não ser visto por ninguém. O homem antigo não sabe mais acreditar. O homem antigo permanece quieto envolvido na névoa de um tempo que apagou a vida. O homem antigo quer ir embora. Só ir embora, mais nada.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

AS PESSOAS CIRCUNSTANCIAIS


(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO) 


As pessoas circunstanciais entram na vida da gente sem que se perceba. De repente, fazem parte de quase tudo. As pessoas circunstanciais surgem ninguém sabe de onde. Num Café, num restaurante, numa banca de jornais, numa livraria. A pessoa circunstancial se aproxima com alguma conversa qualquer. Tenho muitas pessoas circunstanciais na vida que me deixaram marcas. Angústias, decepções, dores. Às vezes nem me lembro mais, mas tento uma explicação. As pessoas circunstanciais desaparecem como surgem. A gente nem percebe. Percebe, sim, depois que somem deixando coisas quebradas, palavras duras, atitudes desprezíveis. Tenho medo das pessoas circunstanciais. Tenho receio de, de repente, encontrar uma delas. As pessoas circunstanciais passam sempre ao esquecimento total, pelo menos no que me diz respeito. As pessoas circunstanciais estão em toda parte. Parece que escondidas nos becos. Nas ruas sem saída. Para estar num beco e ruas sem saída basta eu mesmo, eu comigo mesmo. Eu devo ser uma pessoa circunstancial para minha própria vida. Por isso não me levo a sério. As pessoas circunstanciais não têm compromisso com nada. Eu,  particularmente, tenho um compromisso com a poesia, que é quase a mesma coisa. Pessoa circunstancial de mim mesmo, nada mais tenho a dizer.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A HORA DE IR EMBORA SE APROXIMA CADA VEZ MAIS.

Pretendo retomar os compromissos culturais, lançamento de livros, palestras. Fazer em 2017 tudo que tive de adiar em 2016, por motivo de saúde. Não ando bem, mas não posso esperar a vida inteira esta angústia baixar um pouco. É preciso retornar às coisas. Assim, no final de abril ou início de maio, farei o lançamento em São Paulo do livro de poemas "De mãos dadas", que escrevi juntamente com a poeta espanhola Montserrat Villar González, que é minha tradutora na Espanha. Esse livro foi escrito para ser publicado este ano na Espanha e no México. Mas decidi homenagear a Montserrat e a Editora Escrituras se interessou pelo livro e fez uma edição lindíssima. Traduzi para o português os poemas de Montse, assim como fez na Espanha, traduzindo meus poemas para o espanhol. No livro, um poeta responde ao outro indagações sobre a poesia, tudo em forma de poema. (O mesmo fiz com a poeta Thereza Christina Motta, que vive no Rio. Também esse livro sairá em breve pela Íbis Libris, do Rio de Janeiro. Chama-se "A palavra que a mão não consegue escrever"). Voltando ao livro que escrevi com a Montse, no final cada um apresenta uma biografia bastante resumida. A minha termina  assim: "Planeja viver em Portugal em exílio voluntário". Meu editor falou comigo sobre isso e ponderou que talvez não ficasse bem numa biografia. No entanto, não desaprovou nada. Então expliquei o que se passa dentro de mim, o que ele está cansado de saber.. Não vejo a hora de sair deste país amargurado. Não vejo a hora. Sou brasileiro, filho de pais portugueses, meu pai de Angola e minha mãe de Anadia, em Portugal. Depois de uma experiência de 15 anos com a poesia portuguesa aprendi a compreender algo que se chama sentimento. Estarei lá em outubro para lançar "19 elegias da mão esquerda" e depois seguirei para a Espanha, a partir de Salamanca, para lançar dois livros adiados do ano passado. Quero mesmo sair daqui. Cansei. Cansei de tanta gente indecente que manda no meu destino. Cansei de corrupção. Cansei dos ladrões. Cansei de tudo. Cansei da poesia, também, sem generalizar. O Brasil se transformou numa ficção. Quero sumir daqui o que, entre nós, não terá importância nenhuma. Sou somente um cidadão de 5a.categoria. Os ladrões continuarão a mandar e eu me nego a viver num país onde os ladrões fazem e desfazem, especialmente aqueles que por mais de 20 anos pregaram, com minha ajuda, honestidade e ética na política. Para mim chega. Chega mesmo. A hora de ir embora está se aproximando. Por isso a última frase de minha pequena biografia no livro "De mãos dadas", escrito com a Montse, está correta para minha consciência. Por isso repito: "Planeja viver em Portugal em exílio voluntário". Esse é meu desejo. Espero que a vida me permita realizá-lo.

sexta-feira, 24 de março de 2017

OS PEQUENOS POEMAS DE ATÉ 140 TOQUES MORRERAM.

Acredito que meus 19 leitores acostumaram-se com a publicação todos os dias de um pequeno poema meu de até 140 toques. Começou acidentalmente. Depois acostumei-me. Não que eu escrevesse unicamente para colocar no tuíter. Não. Iniciei uma experiência poética que ainda não sei avaliar o resultado. Assim como fiz com a poesia portugueses. Dediquei-me à poesia de Portugal por longos 15 anos, o que resultou em 17 livros com a temática da poesia portuguesa, o ritmo, a melodia, as palavras, a elaboração do poema, etc. Todos publicados em Portugal. O último livro dessa experiência, "19 elegias da mão esquerda", será publicado em Portugal no mês de outubro. Quanto aos pequenos poemas de até 140 toques a experiência esgotou. Escrevi muito. Todos os dias escolhia um poema para colocar no tuíter. Mas acabou. Estou escrevendo um novo livro que vai chamar-se "O colecionador de pedras" e sinto que a produção desses pequenos poemas está prejudicando esse novo livro que está na minha cabeça. Tudo que vou escrever termina em 140 toques. Chegou a hora de me livrar disso. Lembro-me que quando escrevi "67 sonetos para uma Rainha", publicado só Portugal. Esse livro demorou longo tempo para ser concluído. Eu só falava em decassílabo, tal a marca que os sonetos me colocaram no pensamento, as dez sílabas rimadas, contadas, com um ritmo dos mais difíceis da literatura poética do mundo. Precisei me dar um tempo para me livrar das dez sílabas dos sonetos. É o que acontece agora. Talvez, em algum momento, eu coloque um pequeno poema. Mas não posso mais passar a vida escrevendo poemas assim. Então informo aos meus 19 leitores que essa experiência acabou. Vou novamente me dar um tempo. Vou escrever no tuíter o que me for possível. Valeu a experiência. Vou agora avaliar todo o material que escrevi ao longo desse tempo todo. Se o resultado for bom, farei um livro que já tem até nome: "301 pequenos poemas azuis". Vamos ver no que vai dar. Este ano retomarei tudo que deixei de fazer em 2016, quando, por motivo de saúde, tive de adiar tudo. Para este ano tenho "De mãos dadas", que escrevi com a poeta espanhola minha tradutora Montserrat Villar González. Sairá na Espanha e no México e também aqui no Brasil, com os poemas da Montserrat traduzidos por mim para o português. Sairá também outro livro que escrevi com a poeta Thereza Christina Rocque da Motta, que vive no Rio de Janeiro. Chama-se "A palavra que minha mão não consegue escrever". Depois "19 elegias da mão esquerda" em Portugal, em outubro. E, a seguir, mais 2 livros na Espanha. Também em outubro participarei com uma leitura de poemas do Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, com poetas de vários países. Já está tudo programado. Espero retomar 2016 que para mim não existiu. Em 2016 só participei de antologias internacionais, que não exigiam minha presença. A que mais me orgulha é uma antologia com mais de 200 poetas do mundo. Chama-se "No, rasignación" e trata da violência contra a mulher. Só por isso talvez 2016 tenha valido, mesmo tendo sido tão adverso para mim. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

SOLIDÃO, CICATRIZ ALÉM DA PELE

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

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A solidão corta o ar, as imagens, as palavras. Sentir solidão é estar por dentro de si mesmo, sem rumo, sem saída, uma dor que escorre pelas paredes, pelos livros, pelos dedos. As mãos perdem o aceno e tudo se transforma numa mancha, uma sombra que percorre o olhar, envolvendo tudo. Muitas vezes me sinto sozinho sem saber porquê. Fico então em silêncio comigo mesmo, andando no meio das pessoas, aquela multidão de gente que anda, anda, anda, anda. Eu também ando, mas não sei para onde vou. Ontem à noite ouvi um CD da fadista Mariza, que uma prima me enviou de Portugal. E uma faixa tem o nome "Boa noite, solidão", fado letra-poema de Jorge Fernando. Ouvi muitas vezes. Um fado que me tocou muito na voz linda de Mariza. Um fado que percorre o corpo e a alma, com as guitarras portuguesas, a voz da fadista dizendo de um mundo de dor, essa solidão de todas as horas, que caminha pelas ruas, se mostra no espelho, no poema, na poesia ainda possível. Transcrevo a letra de "Boa noite, solidão", aos meus 19 leitores, para dividir a Beleza.
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Boa noite, solidão,
vi entrar pela janela
o teu corpo de negrura.
Quero dar-te a minha mão
como a chama de uma vela
dá a mão à noite escura.

Os teus dedos, solidão,
despenteiam a saudade
que ficou no lugar dela.
Espalhas saudades pelo chão
e contra a minha vontade
lembras-me a vida com ela.

Só tu sabes, solidão,
a angústia que me traz a dor
quando o amor a gente nega.
Como quem perde a razão,
afogamos nosso amor
no orgulho que nos cega.

Com o coração na mão,
vou pedir-te, sem fingir,
que não me fales mais dela.
Boa noite, solidão,
agora quero dormir,
porque vou sonhar com ela. 

 

quinta-feira, 16 de março de 2017

O VELHINHO NO ENTARDECER DA AVENIDA PAULISTA

Quando me sinto aflito demais, de não suportar, costumo ir até a Avenida Paulista sem encontro marcado com ninguém. Vou para tomar um café sozinho, pensar em pouco nas coisas, conversar  comigo mesmo, encontrar algum amigo que também está perdido por lá. Depois ando um pouco, compro pulseirinhas de couro dos artesãos na calçada, entro na Cultura, vejo livros, descanso e vou-me embora. E foi em um desses dias que, ao andar pela Paulista, vi um velhinho, velhinho mesmo, mas não posso imaginar qual sua idade. Curvado, passos lentos, roupas bastante simples, um velho paletó escuro, calça da mesma cor, uma camisa velha e os cabelos em desalinho. Passeava na Paulista com seus dois cães, certamente os últimos amigos que têm e terá na vida. Dois cães pequenos. Um, ele levava no colo, porque estava cansado. O outro, bem pequeno, caminhava bem devagar junto aos passos vagarosos de seu dono. O velhinho da Paulista conversava com os dois cães. E caminhava devagar seguindo o seu destino, se é que o destino existe. Fiquei observando um longo tempo. Nunca saberei o nome desse velhinho que passeava com seus dois pequenos cães no entardecer da avenida Paulista. Talvez nunca mais o veja. Imagino que atravessou a vida com aqueles mesmos passos vagarosos que, agora, caminham mais lentamente. Não sei o que ele conversa com seus cães, principalmente o que levava junto ao peito. Depois parei junto a uma banca de jornal e fiquei olhando, até que desaparecesse no meio da multidão, dos casais de namorados, das mulhers bonitas que andam por aqui, das pessoas caminhando rápido em busca do metrô, quase todos - ou todos - olhando no celular. O velhinho da Paulista com seus dois pequenos cães ficaram no meu pensamento. Estão lá guardados como uma imagem terna desta cidade desumana, que não respeita ninguém.    

sábado, 11 de março de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO SABE COMPREENDER AS COISAS COMO ELAS SÃO.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

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O homem antigo não sabe compreender. Ingênuo do século 18, o homem antigo acredita em tudo, não sabe no que não deve acreditar. Depois, o homem antigo percebe que está perdido nas ruas, sem palavras, sem rosto, sem mãos, sem casaco, sem distâncias. O homem antigo precisa aprender a viver. Mas é difícil. Os caminhos são árduos. As armadilhas estão em todos os lugares, principalmente nas palavras. O homem antigo só pensa em ver o mar, porque sempre será preciso ver o mar, principalmente no final da tarde, quando começa a anoitecer. O homem antigo tenta esconder-se de si mesmo, mas não consegue. O homem antigo não consegue se esconder. O homem antigo não sabe. O homem antigo ainda acredita. O homem antiga escrever poemas nas madrugadas com seu lápis sem ponta. O homem antigo quer ir embora para algum lugar, mas não sabe qual. O homem antigo caminha sozinho de encontro ao muro sem saída. O homem antigo só quer viver.

terça-feira, 7 de março de 2017

UMA LIÇÃO DOS LOBOS AOS HOMENS

>>> POR FAVOR NÃO DEIXAR COMENTÁRIO <<<
 
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Costumo receber coisas bastante interessantes de minha prima MARIAZINHA SANTIAGO, que é professora da Universidade de Aveiro, em Portugal. Geralmente sobre literatura e poesia, em particular. Mas, de vez em quando ela foge desses assuntos. É o caso do que me enviou agora. Uma bela lição. Por esse motivo, repasso para meus 19 leitores. Vale a pena ler. Especialmente quando a palavra solidariedade está fora de moda, senão completamente esquecida.
 
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O sentido de união e de grupo que
infelizmente falta ao homem que diz
viver em sociedade organizada.

 

 

domingo, 5 de março de 2017

PORQUE ALGUNS POETAS E ESCRITORES ESCREVEM TANTO

Meu amigo querido, poeta Celso de Alencar, sabendo de minha produção literária, enviou-me o trecho de uma entrevista que a professora de Letras, Eulina Pacheco Lufti, concedeu à jornalista e escritora Elizabeth Lorenzoti, que escrevia para o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. A entrevista foi feita em março de 1999.

Sou um poeta com mais de 50 livros publicados no Brasil, incluindo também romances e ensaios literários. E ainda peças de teatro. Mas sou fundamentalmente poeta. Some-se a isso 17 livros publicados em Portugal e 6 na Espanha, além de dezenas de antologias de contos e poesia brasileiras e estrangeiras. Além disso tudo, atualmente tenho 21 livros inéditos e comecei agora a escrever outro que vai chamar-se "O Colecionador de Pedras". E há, ainda, os pequenos poemas de até 140 toques que escrevo para o twitter, em fase experimental e que poderá transformar-se num livro que vai chamar-se "301 pequenos poemas azuis". Tudo inédito ou, antecipadamente, póstumos. Meus amigos de Geração 60, não só de São Paulo, mas do Brasil, dizem sempre que eu sou o poeta que mais escreve. E é verdade: trabalho todos os dias na literatura, até sábados e domingos. Todos os dias. Todos.

O trecho da entrevista de Eulina Pacheco Lufti a Elizabeth Lorenzentti, em 1999, que Celso de Alencar me enviou é o seguinte:

-"A liberdade faz parte da natureza humana. Os que escrevem mais são os que se sentem mais sufocados. Mas, quem tem sensibilidade mais aguçada, com um apelo maior de liberdade, acaba buscando meios para dar vazão a esse desejo. E, no caso, escrever é uma válvula de escape, é um gesto contra essa falsa homogeneização, contra um mundo que não reconhece as diferenças".

Acho que está correto. Eu me encontro nisso. Estou dentro disso, amarrado dentro disso, gritando no meio disso tudo. A palavra é o que me salva, não como uma escrita "mecânica", porque, antes de tudo, busco a qualidade literária em tudo que escrevo. Mas, confesso: escrevo por angústia. Por muita tristeza, desencontros e desencantamentos. Preciso me salvar de alguma maneira.
 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO SABE COMO SEGUIR

O homem antigo está diante de si. Como se não estivesse. O homem antigo não compreende porque, ao olhar no espelho, ele vê a figura de uma mulher distante que habitou sua vida por alguns dias, mas que deixou marcas, uma cicatriz - ele sabe - que não desaparecerá nunca mais. O homem antigo tem um arrependimento dentro de si, mas não sabe do quê. O homem antigo nunca sabe de nada. O homem antigo quer apenas viver o que lhe resta, Anda entre as árvores, os pássaros e as palavras que machucam sempre. O homem antigo escreve um poema no meio da noite e adormece. O homem antigo sempre adormece. E sempre sonha sonhos impossíveis de realizar. O homem antigo nem sabe mais se deseja realizar seus sonhos. As pessoas pedem atitude, em vez de sonhos. Mas a esta altura da vida o homem antigo não quer mais mudar. O homem antigo costuma dizer aos pássaros que a poesia, hoje, é para poucos. Só para os que ainda têm alma. Ocorre que quase todas as almas estão brutalizadas pelo que é prático na vida. Não há lugar para o sentimento. O sentimento deixou de existir faz tempo e o homem antigo nem percebeu. O homem antigo viveu seu último amor e dá graças por isso. O homem antigo não compreendeu bem. Mas ele sabe que não é preciso compreender nada. As histórias se explicam por si mesmas. Com as próprias palavras.   

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A ÚLTIMA CARTA DE AMOR





O homem antigo não sabe esquecer. Só sabe sentir. E guarda o que sente. O homem antigo se perdeu. Anda nas ruas perdidas de si mesmo. O homem antigo soube que o mundo vai se acabar. Lembra da mulher que ocupa sem pensamento e não sabe o que fazer. A mulher que ocupa seu pensamento preferiu a distância ao amor. O homem antigo soube que o mundo vai se acabar. Então começou a escrever sua ultima carta de amor. Mas não sabe a quem enviar, porque a mulher que ocupa todos seus momentos quer fugir da vida e deixar para trás tudo que sonhou. O homem antigo não compreende. Não sabe esquecer. No final das tardes vê as gaivotas no mar de Portugal e conversa com elas sobre coisas que ele mesmo não entende. O homem antigo se transformou num homem triste. Caminha com seu casaco pesado pelas ruas que esqueceu porque quer se perder ainda mais de si mesmo, para ficar sem nenhuma razão percorrendo as igrejas de seu silêncio. O homem antigo escreve sua última carta de amor, mas não sabe as palavras. Então permanece quieto dentro do quarto à procura das sombras para conversar. O homem antigo adormece e deixa que a vida exista em seu percurso, com suas dores e alegrias. Talvez seja melhor.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O ÚLTIMO AMOR







O último amor é quando você não abre mais a janela.

O último amor é quando você sai às rua e vê que tudo mudou, os muros, as árvores, as pessoas que passam por você.

O último amor é quando alguém lhe diz que a Primavera já passou e você nem percebeu.

Quando as mãos trêmulas tentam acenar para alguém, mas não existe ninguém para o aceno.

O último amor é quando tudo se transforma numa lembrança vaga, sem nome, sem data, sem lugar.

O último amor é quando você deseja ficar em silêncio com você mesmo.

Quando você olha o mar e tem vontade de chorar.

Quando tudo parece ausente.

Quando você não sente suas mãos no bolso do casaco.

O último amor é quando você se olha no espelho e não se reconhece, transformado que está em um homem antigo.

O último amor é quando as palavras não bastam mais.

O último amo é quando a poesia deixa de existir.

O último amor é quando você vê na rua um amigo que já morreu.

O último amor é caminhar por lugares estranhos, que você não lembra.

É quando você sente que não vai dar mais tempo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O HOMEM ANTIGO NÃO COMPREENDE

O homem antigo não compreende. O homem antigo só sente. O homem antigo percorre as ruas e nunca sabe aonde vai chegar. Perde-se em sonhos e depois não sabe oque fazer com eles. O homem antigo é sempre atingido por afetos desfeitos com brutalidade. Ele se olha no espelho e procura lembrar-se da própria vida, mas não consegue. O homem antigo não quer lembrar-se da própria vida. O homem antigo tem um ferimento aberto no coração, onde dormem as palavras que ele juntou a vida inteira para nada. O homem antigo não percebe que o mundo é outro. O homem antigo não cabe no  mundo que o cerca, onde as pessoas brincam de viver, destroem as coisas mais belas com uma espada de fogo de maneira perversa. O homem antigo não compreende como as pessoas fazem coisas que vão apagar outras pessoas do próprio afeto. O homem antigo tropeça em si e não acredita. O homem antigo não acredita. O homem antigo chora e sente vergonha de chorar.  

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A POESIA QUE NÃO CABE MAIS

Numa destas noites longas - e quase todas são longas - ouvi um CD de fados antigos. Já conhecia o fado "Sinal da Cruz", gravado por muitos fadistas homens de Portugal. Numa dessas noites longas, algumas intermináveis. O homem antigo costuma se perder nas noites que não terminam. E nessa noite deu atenção especial ao fado "Sinal da Cruz", com letra do poeta Linhares Barbosa e música de Terrer Trindade. Sentiu que, muitas vezes, a poesia não tem mais lugar. Um fado, uma história de amor, que atravessa os anos e sempre é lembrado em algum lugar. O longo poema musicado que tanta gente cantou, exatamente na terra em que a poesia escorre pelas paredes. Não sei dizer o que pensam os portugueses de um fado assim. Mas sei que sempre alguém ouve, alguém pensa, alguém canta. A singeleza dos versos, a confissão de amor em palavras que quase ninguém mais diz. Só o homem antigo permanece diante de coisas assim. O homem antigo ouviu o fado "Sinal da Cruz" muitas vezes. Depois se fez muitas perguntas que ele mesmo não sabia se responder. O homem antigo nunca sabe se responder. Cabe num tempo assim brutalizado um poema de um fado antigo como este? A poesia é triste. A poesia não sabe. A poesia se cala, mas resistirá sempre. Eu peço que meus 19 leitores leiam a letra de "Sinal da Cruz" e procurem ouvir o fado em algum lugar da Internet.

SINAL DA CRUZ

Na pequena capelinha
da aldeia velha e branquinha,
dei à Maria da Luz
uma cruz de pôr ao peito,
e um juramento foi feito
pelos dois sobre essa cruz.

Juro ser tua,
disse-me ela.
Eu disse:
Juro ser teu.
Pelos vitrais da capela
entrava a bênção do céu.

Passavam-se os meses,
o tempo corria,
e todas às vezes
que eu via Maria
sozinha e menina,
dizia-lhe assim:
Maria da Luz,
tu é para mim
o sinal da cruz
da cruz pequenina.

Mas um dia, há sempre um dia,
que nos rouba a fantasia.
Maria entrou na capela,
esquiva, pé ante pé,
mas meu símbolo de fé
não brilhava ao peito dela.

Quis perguntar-lhe pela jura.
porém, de fé perdida,
vi que não vinha segura,
tinha outra cruz na vida.

Passavam-se os meses,
o tempo corria,
e todas as vezes
que eu via Maria
com más companhias,
dizia-lhe assim:

Maria da Luz,
tu és para mim
o sinal da cruz,
da cruz dos meus dias.

Só mesmo o homem antigo para emocionar-se com um fado assim, cantado sempre por voz masculina, com a dor do fado de Portugal, aquela poesia que vai fundo na vida do homem e nas coisas mais simples, que nem se notam mais. Só mesmo o homem antigo, perdido dentro dele sem saber onde se esconder do mundo.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ANIVERSÁRIO DE SÃO PAULO - RUA BREJO ALEGRE



Desta vez a Poesia participará das comemorações do aniversário de São Paulo, que faz 463 anos Uma bela antologia com poetas da cidade, publicada pela SESI-Editora-SP, será lançada na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, com um recital de poesia. A ideia da antologia partiu do poeta e ensaísta Carlos Felipe Moisés e contou com a ajuda de Victor Del Franco. Foram escolhidos nomes de ruas e locais paulistanos que fogem ao comum, como Rua das Flores, Largo da Misericórdia, Ladeira da Memória, Rua Aurora, Viaduto do Chá, Vila das Belezas, Beco dos Aflitos e outros. Cada poeta escolheu um lugar ou rua que, de alguma maneira, tenham a ver alguma coisa com sua vida. Carlos Felipe explica que a ideia de uma antologia assim nasceu de alguns versos de Mário de Andrade: "Ruas de meu São Paulo/ onde está o amor vivo?/ Onde está?". Participam poetas como os próprios organizadores, Carlos Felipe Moisés e Victor Del Franco, Celso de Alencar, Carlos Machado, Glauco Mattoso, Renata Pallottini, Paulo Bomfim, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim, Luiz Roberto Guedes, Reynaldo Damázio e vários outros. Cada poeta participa com poema e um pequeno depoimento. Como participante, escolhi a Rua Brejo Alegre, no Brooklin Paulista, bairro onde passei minha infância, adolescência e onde vivo até hoje.

 
PEQUENO DEPOIMENTO

Nasci na Maternidade de São Paulo, que não existe mais, na rua Frei Caneca. Faz algum tempo uma amiga interessou-se em produzir um livro com poemas meus que citavam ruas de São Paulo, especialmente os publicados nos anos 70 e 80. Sem contar os romances como “A Faca no Ventre” – que foi publicado no Japão –, ”O Defunto - Uma História Brasileira” -  e “Autópsia”. Essa amiga pesquisou todos os meus poemas que citam nomes de ruas de São Paulo e a primeira (Rua da Consolação) ocorreu em “O Sermão do Viaduto”, os poemas que eu dizia nos anos 60 no Viaduto do Chá, com microfone e quatro alto-falantes. Foram nove leituras e cinco prisões pelo DOPS, até a proibição definitiva dos recitais. A sexta prisão, a mais dura e violenta, ocorreu em 1969, quando a polícia da ditadura descobriu que era eu quem desenhava os cartazes do Partido Socialista Brasileiro, por meio de uma exposição de desenhos que fiz no Instituto Graal, na Rua Cardoso de Almeida, promovida pela Igreja dos Dominicanos, nas Perdizes. Essa amiga chegou à conclusão que de todos os poetas que pesquisou, eu sou o que mais citou ruas da cidade de São Paulo em poemas. Acho a ideia de Carlos Felipe Moisés de organizar uma antologia com poetas falando das ruas paulistanas das mais louváveis, iniciativa concluída por Victor Del Franco. Uma das ruas que mais guardo em mim é a Brejo Alegre, no Brooklin Paulista Novo. O bairro era dividido em duas turmas, a da avenida Central (hoje Padre Antonio José dos Santos) e a da rua Brejo Alegre. As duas turmas rivais eram separadas pela Sociedade Hípica Paulista, que até hoje tem o seu portão principal na rua Conceição de Monte Alegre. Ninguém de uma turma podia entrar no território alheio. Era briga certa, clima que se acirrava mais no futebol, quando os times das duas turmas se confrontavam. Eu morava com meus pais na rua Catipará. Naquela época, eu jogava no juvenil do Corinthians, que tinha como técnico o ex-jogador Rato. Fui levado ao Corinthians pelo então diretor do clube, Wadid Helou, que alguns anos depois tornou-se seu presidente. Ele me viu jogar no Grêmio Desportivo Monções, que tinha seu campo na rua Flórida. De vez em quando, junto com alguns amigos, eu me atrevia a invadir o território inimigo da turma da rua Brejo Alegre. Apanhei muito por esse atrevimento. Mas de vez em quando a minha turma pegava alguém do outro lado da Hípica e espancava também. Para quem já escrevia poesia e publicava no jornalzinho do bairro o futuro não era muito claro. O trabalho começou bastante cedo: com 12 anos eu era jardineiro em Cidade Monções, onde viviam os ricos. Também fazia carreto na feira livre da rua Pensilvânia, com meu carrinho de rolimã, toda quarta-feira, de onde eu levava os restos para casa, única maneira de comer um pedaço de fruta. Depois, aos 14 anos, fui operário numa fábrica de canetas, na rua Arandu. O dono da fábrica, a seguir, me levou para ser contínuo no extinto Correio Paulistano, na rua Líbero Badaró, que foi o meu primeiro contato com o Jornalismo. A seguir, vieram os estudos, o encontro com o Massao Ohno, os Novíssimos e a vida por enfrentar, especialmente após o golpe de 1964. Guardo cicatrizes até hoje. Nunca serão esquecidas. Hoje eu me olho no espelho e me pergunto: “Então, foi para isso?”. Mas guardo também esses momentos singelos de uma infância e adolescência bastante pobres e, no meio dessa pobreza, a rua Brejo Alegre que faz parte de minha vida. Convém dizer que, depois dos 20 anos, todos nos tornamos amigos e até fizemos parte de um coral na Igreja São João de Brito, que fica ainda na rua Luisiânia. E cada um seguiu o seu caminho. Muitos não existem mais.

   

RUA BREJO ALEGRE


Os operários da rua Brejo Alegre não existem mais

mas estão guardados na memória onde repousam as imagens

algumas fotografias perdidas sem palavras.

Os operários da rua Brejo Alegre

partiram num navio de esquecimentos

um mar de terra escura

como uma lápide e seus lamentos.

 

Quando eu era vivo percorria as ruas de uma cidade

repleta de igreja e hóstias sagradas

ao cantos de anjos tristes que dormiam na minha casa.

Gostava das ruas com nome de santos

porque andava a rezar como quem se esquece

assim em altares que não sei mais

no murmúrio da lágrima de uma prece.

 

2

 

Eu era um poeta parnasiano em 1902

quando comecei a conhecer a cidade em que me esqueço

como se me percorresse em mim mesmo

os becos das mulheres que me amaram, que desconheço.

 

Os operários das fábricas das construções das praças

o coração vermelho no fio de sangue a escorrer do lábio

um sabor de domingo ao entardecer

quando quase tudo se esconde

e São Bento se cala

monge que se morre em apelos

no canto vazio de uma sala.

 

Os rios também eram vermelhos

desse vermelho tão vermelho

que o vermelho não compreende

no corte da ferida aberta a palavra morta que não sabe

já que a boca não diz que nada é necessário

quando amanhecem as auroras em palcos perdidos

teatros de personagens que se afligem

em sílabas de ais nos poemas feridos.

 

3

 

Sou apenas um transeunte de ruas ausentes

apagadas de um mapa invisível

que ainda trago no bolso do casaco

aquele da Galeria Metrópole da guitarra elétrica

e de tantas mulheres que amei em desespero

no Copan onde residi com uma dor impossível de sentir

aquele delírio dos anjos expulsos

os que querem ficar naquela hora de se ir

faces que se perdem

no outro lado do espelho

um lugar no paraíso

com o grito mais vermelho

o que se apaga nesses becos

nada novo tudo velho.

 

Cidade de São Paulo de São Judas de São Francisco

Santa Maria Madalena Santa Rita de Cássia

Nossa Senhora de Fátima São José

As ruas de Álvares de Azevedo

pecados que ainda guardo como relíquia

esse Deus que me faz mastigar pecados

criaturas que saltam de mim das minhas ruas

praças que esqueci no meu nome

uma bolsa de estrelas cadentes minhas luas

a pressa de não viver num labirinto

o poema que se cala nas sílabas nuas

nas verdades da poesia em que minto

sílabas decoradas dez oito treze uma duas

e mais e mais e mais e mais que já não sinto

as mulheres que me habitam bailarinas do nada

esse homem quieto que se percorre e se delira

antigos poetas nos sobrados anoitecidos

que ainda acreditavam numa lira.

 

4

 

Angélicas ruas de antigas mulheres

de bocas vermelhas no esmalte de unhas longas

que no Arouche engoliam as floriculturas

mistura na memória das ladeiras

em que os sapatos se perdem dos destinos

que se vivem na busca da liberdade

assim queriam os operários da Brejo Alegre  

mas agora tudo é tarde.

 

5

 

Morreram-se em si

não resta nada

senão o que se tece no que se sente

o que se esquece no ausente o que entardece

na tarde que anoitece inclemente

o que nunca permanece no que se mente

calada palavra que se enaltece

no brejo das almas serpente que se padece

e no entanto amanhece

a manhã mais veemente que escurece

sonho demente

que nas horas desaparece no mais evidente

que enlouquece assim demente

que se aquece alma clemente

a tez tecida somente da lã que esvanece

o que é aparente no que se foge

o que aparece vagamente e se carece

a face que se oferece e se conhece

morta morta morta gente

o que não é mas acontece

não existem mais os operários da rua Brejo Alegre

engolidos calados ao passar dos anos

nos comícios mudos de promessas nulas

no sonho dos desenganos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ESTHER PROENÇA SOARES, 88 ANOS, POETA.

 
 
 
 
Já faz algum tempo que conheço Esther Proença Soares. Nos meus últimos lançamentos de livros em São Paulo ela compareceu. Sempre conversamos um pouco. Gosta de conversar sobre literatura, mas prefere ser chamada, sempre, de professora. Soube um dia que ela já havia publicado um livro de contos, "Inventário das Sobras" e um magnífico livro para crianças, com uma linguagem primorosa e ilustrações de Kik Neves. Ela explica que trata-se de um livro em linguagem infantil para escritores nascentes, com algumas informações sobre teoria literária. Mas o que Esther Proença Soares queria mesmo era me mostrar um livro de poemas que escreveu ao longo dos anos. Queria saber de mim se eram poemas mesmo ou se somente palavras sobre palavras. Li o livro "Disco de Cartolina", que está saindo agora pela Pólen Editorial de São Paulo. Fiquei encantado. Conversamos sobre o original, trocamos ideias num longo café na Avenida Paulista, falamos sobre poesia exaustivamente. Ao ver o livro de Esther publicado chego a pensar que ainda é possível acreditar. Os tempos são de sombras, mas ainda é possível acreditar.     
 
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No primeiro poema de seu livro, Esther Proença Soares, 88 anos, explica que chegou de caravela e navegou luares. Na verdade, navegou muitos luares, infindáveis luares que vivem nela e nas suas palavras cuidadas com zelo. Agora, depois de tanto tempo a navegar sentimentos, diz que anda a cultivar poemas. O livro “No disco de cartolina a vida se somou” é uma autobiografia em versos, cuidadosamente elaborada, buscando dentro de si momentos que vivem ainda, mesmo vestidos de um passado que não se esquece, porque tudo vive. Esther abre seu livro com versos do poeta Manoel de Barros e essa epígrafe revela a trajetória deste livro: “Buscar beleza nas palavras é uma solenidade de amor”. Exatamente isso. O livro de Esther – poderia ser um título – é mesmo uma solenidade de amor, uma cerimônia de cultivar a vida, todos os instantes da vida, todas as dores da vida e os possíveis gestos que essa mesma vida ainda tem de generosidade. Em um poema ela afirma que seu poema é o eco certo e matemático de cada grito, de cada pulsação. É assim que essa poeta colhe sua poesia a caminhar distâncias, ausências, figuras quase apagadas na memória, ferimentos, confissões. Muitas vezes, uma longa carta de amor. Outras vezes a palavra que renasce em si mesma dentro de um poema. Por isso, Esther é uma poeta que escreve versos assim, de extremada beleza: ”Enquanto tu, eterna obreira, teces/ no vai e vem de tua agulha tecedeira/.../”. Certamente refere-se a ela mesma, tecedeira de palavras com as agulhas às vezes dolorosas da poesia. Nesta longa carta de amor em forma de poemas, Esther também se mostra perplexa com um tempo muitas vezes sem alternativa, em que tudo se transforma. Deixa claro que, mesmo diante desse cenário de quase tudo destruído, ela ainda canta a sua Pauliceia Desvairada, lembrando a figura de Mário de Andrade e de uma cidade que um dia existiu, hoje não existe mais. Hoje vive nos pedaços das esquinas, nas sombras caminhantes que percorrem os jardins que desaparecem. No entanto, a poesia de Esther nada tem a ver com Mário de Andrade, e a cidade desvairada foi, neste caso, um silêncio que saltou mais forte dentro do poema. No entanto, essa perplexidade existe não somente em relação à Pauliceia, mas à vida e ao tempo que passou e apagou tantas coisas. “Para fazer um poema/ não basta empilhar versos/ resgatar um sentimento/ ou lamento”, diz a poeta em um poema que, antes de ser a palavra da poesia, é a palavra da poeta, revelando, a esta altura da vida, a sua seriedade em lidar com os seres invisíveis que surgem em forma de versos. Por esse motivo, observa que a ordem, agora, “é seduzir as incoerências, o jogo de sombra e luz, e invocar as transgressões, o caos das palavras”. Aí reside essa poesia, a palavra que se tece, que se cuida, que se elabora, No final de tudo, “fazer um poema é uma celebração”. E é mesmo. Pelo menos para os poetas sérios, o que está difícil de encontrar num tempo de profunda negação da vida. Caminhar estas páginas representa uma viagem, uma longa viagem poética que tem a vida no palco a ser vivida por personagens que vivem dentro de Esther. Ela escreve: “Escrever um poema é ousadia enorme/ Desculpem se cometo assassinatos nos meus versos/ Eles brotam em mim e me sufocam/ pedindo para nascer/ ser minha história”. É, sim, a história de uma vida que se deixou viver, muitas vezes uma verdadeira batalha, outras. a cerimônia de poder colher os instantes que se fizeram inesquecíveis. A poeta Esther Proença Soares confessa em um de seus poemas sentir que sua alma é de vidro que se estilhaça. Mas num mundo assim, certamente isso seja normal, porque as almas estão mesmo curvadas: “Muitas vezes como um gato/ enrolo-me no abrigo de mim mesma/ lambendo minhas feridas”. As feridas existirão sempre. O que vale mesmo é o encantamento que este livro oferece, uma palavra poética feita especialmente por tudo que se viveu.                          

domingo, 15 de janeiro de 2017

HOMEM ANTIGO

O homem antigo percorre seus labirintos e não compreende.
O homem antigo não compreende quase nada.
O homem antigo lê uma carta de amor e não sabe o que dizer.
O homem antigo anda consigo mesmo de mãos dadas pelas ruas e pelas praças e quase sempre se perde, sem nunca saber onde está.
O homem antigo ama um amor que não conhece, que faz crescer nele uma planície de girassóis, mas ele não compreende, ele não sabe o que é um girassol.
O homem antigo caminha por seu tempo sem saber onde chegar.
O homem antigo espera uma estrela chegar com uma luz que ele nunca viu, mas deseja, deseja, deseja, e nesse desejo o homem antigo olha seu relógio parado, mas não sabe perguntar a hora para ninguém.
O homem antigo não sabe se expressar.
O homem antigo só espera, o homem antigo esperou a vida inteira, o homem antigo atravessou a vida numa espera que não terminou nunca.
O homem antigo canta uma canção desconhecida, medieval, como se tivesse uma princesa ao seu lado, a colher flores silvestres, a orar nas igrejas, a perdoar-se dos pecados que não cometeu.
O homem antigo tem vontade de chorar e sempre chora, especialmente no final das tardes, quando começa uma noite sempre interminável.
O homem antigo escreve um poema, mas ele não sabe para que serve um poema. O homem antigo acredita na poesia, ele vê a poesia, ele colhe a poesia, ele descobre a poesia, ele aguarda a poesia todo momento, a poesia não lhe sai do pensamento, não sai de si, porque essa poesia grudou na sua pele, como se fosse a pele dele mesmo.
O homem antigo espera, o homem antigo espera o dia amanhecer.